sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Aquário. ( Para a L. P. )

O Peixe-Vampiro,
o Peixe-Dragão e o
Balão e o Palhaço...

A Anémona,
o Peixe-Picasso
e os olhinhos tímidos
do Anjo...

Solidão Urbana.

O silêncio imperativo da noite.
Mesmo se ao longe cintilem as luzes na estrada,
ou passem carros com os seus brilhos amarelos e vermelhos.

Ou no interior dourado dos salões
as mulheres disponham com zelo
os pratos sobre as toalhas de linho.

Nas tabernas, o silêncio.
Estalam depois os gritos de trolhas
que falam e gesticulam, bêbados.
E os velhos,
que sorriem escavacados...

Nem Maldoror sobreviveria a tamanha,
imperturbável confusão.

O mudo silêncio dos contadores de estórias,
dos sonhadores e dos alucinados.

Nem o prolongado eco estelar romperia o puro,
opaco, vazio do silêncio.
Nenhum rosto o transformaria.
Nem que batessem asas os pássaros
em debandada.

Romantismo.

Também Catarina deixou
de amar Grigory Orlov.

E Potemkin e Catarina
foram só dois amantes mais.

António e Cleópatra,
Josefina e Napoleão.

Depois,
o que importam?

O que será melhor realmente,
as batalhas,
ou o turbilhão das guerras?...

O Meu Mar É Castanho Como A Minha Terra.

O meu mar é castanho como a minha terra.
O galope das naus nas ondas do mar.
Ilhas, de que fortuna?
Todas são desespero.
Todas são loucura, sangue seco.

Deslizam as quilhas pelas ravinas húmidas.
São as aranhas que sobrevivem, seja onde for.
A vida passada a dormir dos gatos domésticos.

Uma capa sombria, capa negra de corvo.
O corvo que habita as falésias sobre o mar.

Algures, comem pastéis de Sintra, a boca suja do açúcar.
E os loucos caem na relva dos jardins
regurgitando a espuma de vinhos adulterados.

Este aqui tem as barbas de um almirante.
A sua armada anda há muito perdida na Australásia.
E a garupa mais se assemelha a um ninho de vespas.

O Meu Mar É Castanho Como A Minha Terra.

Herói Romântico.

Nunca o abismo profundo
apagou o sofrimento
ao herói romântico.

Nem as paredes aprisionaram
a sua errância desesperada.

O futuro sonâmbulo
dilui-se em penumbra
e a aurora que aí vem
gela o seu coração despedaçado.

Nem os vultos sombrios das carpias
que esvoaçam loucas
o serenaram.

Ou a brancura imparável das luzes
do esquecimento.

O fim da história
é essa sinistra figura que definha
na luz intemporal do dia seguinte.

domingo, 1 de novembro de 2009

O coração calou António Sérgio. ( 1.XI.2009 )

A noite dita por essa voz
grave
e repousante,

sempre à frente dos sons
com que se confundia...

Foi um prazer,
António.
O meu obrigado.