quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Famoso Caderno. Dor.

Esses olhos não são os meus,
nem a mão que te envolve
o ombro, é a minha mão.

Eu tenho os olhos abertos
e fixos no tecto da sala.

E trago as minhas mãos
fechadas e inertes, sem vida.

Há muito tempo já
eu pareço adormecido
num vulcão aceso.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O Famoso Caderno. Eugénio de Andrade.

Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade, Trinta Poemas, O Sal da Língua Precedido de Trinta poemas, APE, 2001, Bibliotex, p.8.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

domingo, 10 de junho de 2012

O Famoso Caderno. Saudade.

Ausente e longe
de ti.

Não vou esquecer-te
nunca.

Tão presente em mim,
como estiveste
um dia.

sábado, 9 de junho de 2012

O Famoso Caderno. Atracado ao Cais.

Não gosto do " pimba ",
nem nunca,
em circunstância alguma,
eu gostei.

Não gosto de corações vermelhos,
de fundidos,
de frases feitas,
não gosto,
nem vou gostar.

De falta de acentos, não gosto,
de erros de ortografia, muito menos,
de " grandes malucos ",
ei, ei,
o que aí vai...

É uma linguagem
que imita adolescentes,
que repete erros
que eu não gosto.

É um falso amor
que desponta,
o amor alfa,
o amor pateta
e eu detesto.

Não gosto de garbo,
nem da mentira,
não gosto de nada disso,
nem irei gostar.

Não gosto mesmo.

Detesto,
claramente.

Não quero saber se o amor começa
quando transborda,
nem se há amor,
ou irá haver.

Desespero com isso
e sempre foi assim.

Não irei gostar de nada disso,
não irei nunca,
nem de nada mais.

Não gosto,
não vou gostar,
nem nunca gostei.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Famoso Caderno. Do pé para a mão.

Não escondas os olhos
na nudez dos braços.

Os gatos há muito sonharam
a tua fragilidade, no abandono
diário do seu sono quieto.

Não mintas sobre o sobressalto
dos teus dias tão iguais.

Há lobos que uivam
não se sabe onde.

Talvez os teus olhos
se abram para a sua sede.

E o teu corpo
te peça a água límpida
dos regatos.

Não deixes que os peixes
te suguem o desenho dos pés.

Nem isso vale a pena,
de tão banal.

Ou que mãos,
muito oportunas,
consumam a linha
cruzada do teu desejo.

Não adormeças
na solidão escondida.

Nem te protejas
em mais ninguém.

Há aves que esvoaçam
nos teus olhos cerrados.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Famoso Caderno. Arrependimento.

Não sei porque ainda voam
as aves nesta manhã azul.

E se ouve o seu chilrear
na nudez da tarde.

Agitam-se ao vento
as folhas das árvores.

E eu cerro os olhos,
de desalento e abandono.

Como quem esconde
um coração negro
no peito ferido.