terça-feira, 22 de maio de 2012

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Famoso Caderno. Depressão.

Angustiam-me as sombras
dessa tarde de luz.

A dilatação do silêncio.

O lixo que parece invisível.

A gordura que borbulha
na pele branca.

Deprimem-me as camadas
de verniz, as unhas roídas,
os tufos de erva daninha.

O close-up da poeira.

Um nó na garganta,
as raízes doridas
das árvores gigantes.

A noite que
depois caíu,
muda.

Captain Beefheart This Is The Day Old Grey Whistle Test 1974

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O Famoso Caderno. Mediúnico...

Os olhos piscos,
a barba que desponta
e se espeta na cara,
o rosto redondo,
o sorriso apalhaçado.

Os pelos da mão
sapuda,
não.

E esses dedos,
que parecem pés...

O silêncio
fictício,
a encenação
estúpida.

domingo, 13 de maio de 2012

O Famoso Caderno. Assim, nunca...

Nem sei se é amor
o que tu sentes...

O amor enche na vazante,
descobre um filão
de quartzo frio
nos areais molhados
e risca-se na lixa
dos erros
e nos bagos
de uva.

Desenha e alisa
as pedras
e as conchas.

O amor é mais ainda,
indizível como
um segredo,
que ninguém
escutou,
nunca.

Mas não vai bem
com esses caracóis,
o abdómen preso,
a barba,
o desenho velho
de um  perfil
já antigo.

Imagino que o amor
volteia sobre nuvens
e não vem...

Ficamos a olhar
o céu
e não,
não o vemos
nunca.

O amor não se vê,
nem se sabe.

E o que se sente?

Com esses caracóis, nunca.

É um vulto que
esconde os pés
cansados
e brancos,
nas sandálias...

Não está aí,
o amor,
não está
aí.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Famoso Caderno. Desânimo. 3.

Já não quero ver gaivotas
a pousar no convés branco dos navios.

Não quero sentir nunca mais,
a humidade dos rolos de espuma,
da água que cai de grandes alturas.

Nem ouvir a música que subia
dessas cascatas de emoções,
quando me recordava de nós,
só por dizerem o teu nome.

O teu sorriso fechou-se.

E as tuas mãos já não abrem
gestos de ternura para mim.

Agora vivo de não te querer.

E ainda bem que não sabes,
nem me vês.

Sou capaz de não reparar,
nem mesmo no avesso
de ti própria.

Ah, os navios, quando anoitece
no porto de Cantão...