domingo, 13 de maio de 2012

O Famoso Caderno. Assim, nunca...

Nem sei se é amor
o que tu sentes...

O amor enche na vazante,
descobre um filão
de quartzo frio
nos areais molhados
e risca-se na lixa
dos erros
e nos bagos
de uva.

Desenha e alisa
as pedras
e as conchas.

O amor é mais ainda,
indizível como
um segredo,
que ninguém
escutou,
nunca.

Mas não vai bem
com esses caracóis,
o abdómen preso,
a barba,
o desenho velho
de um  perfil
já antigo.

Imagino que o amor
volteia sobre nuvens
e não vem...

Ficamos a olhar
o céu
e não,
não o vemos
nunca.

O amor não se vê,
nem se sabe.

E o que se sente?

Com esses caracóis, nunca.

É um vulto que
esconde os pés
cansados
e brancos,
nas sandálias...

Não está aí,
o amor,
não está
aí.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Famoso Caderno. Desânimo. 3.

Já não quero ver gaivotas
a pousar no convés branco dos navios.

Não quero sentir nunca mais,
a humidade dos rolos de espuma,
da água que cai de grandes alturas.

Nem ouvir a música que subia
dessas cascatas de emoções,
quando me recordava de nós,
só por dizerem o teu nome.

O teu sorriso fechou-se.

E as tuas mãos já não abrem
gestos de ternura para mim.

Agora vivo de não te querer.

E ainda bem que não sabes,
nem me vês.

Sou capaz de não reparar,
nem mesmo no avesso
de ti própria.

Ah, os navios, quando anoitece
no porto de Cantão...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Famoso Caderno. Silva Pinto.

Silva Pinto

Crítico literário, ensaísta, dramaturgo e romancista português, da segunda metade do século XIX, nascido a 14 de abril de 1848, em Lisboa, e falecido a 4 de novembro de 1911, na mesma cidade. Foi um dos principais doutrinadores do Realismo-Naturalismo, privilegiando a estética de Balzac, de cuja obra foi tradutor e grande admirador, e a crítica de Gustavo Planche.Depois de uma passagem pelo colégio de jesuítas de Campolide, começa a trabalhar como ajudante de despachante de alfândega. A partir de 1872, dedica-se ao jornalismo, estreando-se como colaborador no jornal O Trabalho e fundando, juntamente com Magalhães Lima, Gomes Leal, Guilherme de Azevedo e Luciano Cordeiro, a revista literária O Espetro de Juvenal. Ao longo da sua vida, deixará uma imensa colaboração dispersa por periódicos como O Ocidente, Jornal da Tarde, A Atualidade, A Voz do Povo, Revista do Norte e Revista Literária, parte da qual foi posteriormente recolhida nos três volumes dos Combates e Críticas. Em Espanha, combate ao lado dos republicanos contra os carlistas. Depois de uma estada de dois anos no Brasil, regressa a Portugal. Em 1887, recolhe os poemas de Cesário Verde, organizando a edição do seu livro póstumo, que prefaciou e anotou. A partir de 1889, dedica cada vez mais a sua atenção à obra de Camilo, publicando a correspondência mantida com o escritor.

O Famoso Caderno. Florbela Espanca sobre António Nobre.

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Eu confesso que em matéria de versos o único que me faz chorar, o único que é para mim Poeta, é António Nobre. Não é desdenhar o resto, pois sei que temos adoráveis poetas, mas... o Anto é o único que eu sinto e por isso é o único que eu amo.

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Florbela Espanca, Obras Completas, Volume V, Cartas 1906-1922, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1986, " Minha querida Júlia ", s/ data, p.177.

O Famoso Caderno. Eduardo de Souza, " O poeta do " SÓ ".