domingo, 8 de abril de 2012

O Famoso Caderno. Maldade.

Acendi os fósforos,
um a um,
com a maldade
de uma criança.

Só que bem perto
do fim,
quando queimei
os dedos,
tu já não estavas...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Famoso Caderno. Expressionismo.

Depois havia um abutre
que chapinhava nos despojos
ensanguentados da loba
moribunda.

E o asco que fazia cuspir
o muco interdito
e obsceno
da sua maldição.

O céu praguejava
clarões de tempestade.

E uma guerra imensa
não o deixava dormir.

Por dentro das pálpebras
zumbiam os insectos
e as hienas esperavam
a sua hora, enviando
mensagens ininterruptas
na rede vodafone.

Quando desataram
as suas risadas ocas,
a loba já era cadáver.

O Famoso Caderno. Bipolar.

Eu teria feito a cama
com lençóis de veludo
e mantas de cabedal.

Talvez os castiçais
me trouxessem de novo
a sobriedade do sono.

Mas virei costas
às pálpebras
e abandonei a casa.

Hoje vivo a inquietação
histérica e errante
das gaivotas junto ao rio.

Desfio pétalas doidas
que murcham rápido
entre os meus dedos.

E trago
as unhas roídas,
nas mãos crispadas,
de tão rubras.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O Famoso Caderno. Para ti.

Oiço a tua voz
dentro desta sala
tão nua e beijo
os teus olhos
fugidios,
perdidos no sorriso
irónico,
que só tu sabes
porque o tens.

Vejo o teu vulto
esguio
em qualquer pintura,
os ombros,
os teus ombros,
sobretudo,
vejo-os no realismo
destas minhas
mãos
abertas,
vazias,
tão minhas
e tão sós.

Depois, tu,
ao longe,
serás luz
e cor,
serás tu
própria,
envolta já
no tule da noite.

Que me importa?

Se és tu,
tu mesma.

segunda-feira, 19 de março de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

O Famoso Caderno. Tempo.

Não te lances ainda
nesse voo mortal.

As asas têm anjos
que só as sabem segurar.

Vá, não voes,
deixa estar o vento.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Famoso Caderno. De A a Z.

É melhor atirar-se à luta
do que permanecer estático,
ao volante, na estrada rápida,
como os pobres de espírito,
com que me cruzo, mais velozes ainda,
inconscientes,

que não conhecem a glória
de ressurgir dos escombros,
quando se estampam,
os infelizes.