Aprendi a nostalgia sob o calor forte
de Luanda.
E a angústia.
Às sete horas da tarde de Domingo,
na véspera de um exame,
ficava de coração apertado e só,
na enorme nave central da Igreja
da Sagrada Família.
A felicidade, também, claro.
Céu azul, mar azul
e os banhos de mangueira
e alegria, na relva
do jardim.
Tive sempre cinquenta amigos.
E namorei, miúdo ainda,
a dançar Otis Redding,
encantado.
E Percis Sledge.
Ainda hoje não esqueço
Don´t Ever Change,
dos The Kinks...
E as acácias em flor.
Os cajús,
tão difíceis de comer.
As viagens para o Motel da Cela,
que começavam de madrugada
e em que só se parava trezentos quilómetros depois,
para tomar o primeiro café.
As Páginas Soltas na rádio à meia-noite,
que era uma senhora que lia poesia,
com uma voz lindíssima
e de quem já não sei o nome.
Os paraísos artificiais de depois
e em que fui tão precoce
e pioneiro.
Moldei aí o meu carácter
e ainda hoje me vejo isento
e recto, como quem prescruta
a linha do horizonte com um binóculo,
ou ouve os pássaros na floresta.
Por isso gosto
de olhar o mar.
De buscar Sintra
e encontrar a luz
e o aroma
da cidade onde nasci.
De sentir saudades
de mim.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Foi Há Cinquenta Anos...
Ao Carlos Augusto Neves e Sousa Ramos, meu amigo de sempre.
Há cinquenta anos, em Luanda, fui com a minha mãe, uma jovem de vinte cinco anos e a Dra. Elisa Canas, Directora da escola primária Dr. João das Regras, na Maianga, onde estudei até à quarta classe, participar nos funerais dos polícias mortos pelo primeiro ataque do Movimento de Libertação dos Povos de Angola, que dera início à Guerra Colonial.
Recordo que houve tiroteio junto ao Cemitério, que viemos em grande correria a fugir para o carro e que, de regresso à cidade, estivemos presos num engarrafamento monumental, o primeiro da minha vida.
Em casa, à noite, a família reunida na sala, com enorme preocupação e eu, escondido na dispensa, pensava poder viver ali refugiado para o resto da vida... Dormiria deitado no chão e teria toda a comida de que necessitasse nas prateleiras...
Oh, que inocência...
Meu pai, para fugir à confusão de Luanda, resolveu levar a família para a nossa fazenda de café, no Quanza Norte, a fazenda Montes Claros, que fora do meu avô, a Oliveira Gomes e Filhos, Ltd.
Aí foi pior... Em Março, rebenta a União dos Povos de Angola nesses campos de colonos e cafezeiros, com as atrocidades dos ataques de surpresa e à noite, que são bem conhecidos.
Avisado pelo PBX desses ataques, o meu pai só teve tempo de meter a família num Jeep e fugir para Luanda. Só conseguimos chegar ao Úcua, onde me recordo de dormir num armazém, com outras crianças, mulheres e idosos, protegidos pelos homens que no exterior faziam guarda da forma que podiam.
Acabámos a viagem de regresso em coluna militar, que para o efeito nos tinha ido lá buscar.
Nunca mais voltei ao Quanza Norte. Mas tenho para sempre na minha memória as brincadeiras que por lá fazia, na fazenda e no Bula, uma vila próxima, onde os meus pais tinham uma casa fabulosa, de que tenho ainda muitas fotografias.
Foi aí, nos jardins da casa, que aprendi a andar, sempre protegido pela minha lindíssima mãe.
Vejo-o hoje nas fotografias que preservo, com imensa ternura.
E penso... já lá vão cinquenta e cinco anos...
E a Guerra Colonial faz agora cinquenta anos.
Hoje, a minha mãe, que já tem setenta e seis anos e a minha irmã, com cinquenta e um, vão viajar para o Recife.
Vou agora sair de casa, para me ir despedir delas ao Aeroporto da Portela.
Há cinquenta anos, em Luanda, fui com a minha mãe, uma jovem de vinte cinco anos e a Dra. Elisa Canas, Directora da escola primária Dr. João das Regras, na Maianga, onde estudei até à quarta classe, participar nos funerais dos polícias mortos pelo primeiro ataque do Movimento de Libertação dos Povos de Angola, que dera início à Guerra Colonial.
Recordo que houve tiroteio junto ao Cemitério, que viemos em grande correria a fugir para o carro e que, de regresso à cidade, estivemos presos num engarrafamento monumental, o primeiro da minha vida.
Em casa, à noite, a família reunida na sala, com enorme preocupação e eu, escondido na dispensa, pensava poder viver ali refugiado para o resto da vida... Dormiria deitado no chão e teria toda a comida de que necessitasse nas prateleiras...
Oh, que inocência...
Meu pai, para fugir à confusão de Luanda, resolveu levar a família para a nossa fazenda de café, no Quanza Norte, a fazenda Montes Claros, que fora do meu avô, a Oliveira Gomes e Filhos, Ltd.
Aí foi pior... Em Março, rebenta a União dos Povos de Angola nesses campos de colonos e cafezeiros, com as atrocidades dos ataques de surpresa e à noite, que são bem conhecidos.
Avisado pelo PBX desses ataques, o meu pai só teve tempo de meter a família num Jeep e fugir para Luanda. Só conseguimos chegar ao Úcua, onde me recordo de dormir num armazém, com outras crianças, mulheres e idosos, protegidos pelos homens que no exterior faziam guarda da forma que podiam.
Acabámos a viagem de regresso em coluna militar, que para o efeito nos tinha ido lá buscar.
Nunca mais voltei ao Quanza Norte. Mas tenho para sempre na minha memória as brincadeiras que por lá fazia, na fazenda e no Bula, uma vila próxima, onde os meus pais tinham uma casa fabulosa, de que tenho ainda muitas fotografias.
Foi aí, nos jardins da casa, que aprendi a andar, sempre protegido pela minha lindíssima mãe.
Vejo-o hoje nas fotografias que preservo, com imensa ternura.
E penso... já lá vão cinquenta e cinco anos...
E a Guerra Colonial faz agora cinquenta anos.
Hoje, a minha mãe, que já tem setenta e seis anos e a minha irmã, com cinquenta e um, vão viajar para o Recife.
Vou agora sair de casa, para me ir despedir delas ao Aeroporto da Portela.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Cinema.
Sem pensar e sem querer,
há muito tempo,
à hora da matiné.
Era preciso espreitar
para lá do muro,
sabiam?
Havia um muro.
Um muro que não servia
para nada.
Um muro por desfazer.
É tão tarde agora.
É tão tarde,
sempre.
Víamos os filmes,
sem saber os títulos.
A Romy Schneider,
o Alain Delon...
Depois,
nem tu sabias onde íamos,
ninguém sabia.
Nem tu com o teu sorriso
cúmplice,
o sorriso de miúda.
Ficávamos pelas esplanadas,
quase sem falar,
para quê?
Os teus últimos amigos,
à luz das lâmpadas,
estão tão sós.
E tu,
que os conhecias a todos,
onde estarás?
Não sei porque fiquei
por aqui.
Porque fui eu
que fiquei.
há muito tempo,
à hora da matiné.
Era preciso espreitar
para lá do muro,
sabiam?
Havia um muro.
Um muro que não servia
para nada.
Um muro por desfazer.
É tão tarde agora.
É tão tarde,
sempre.
Víamos os filmes,
sem saber os títulos.
A Romy Schneider,
o Alain Delon...
Depois,
nem tu sabias onde íamos,
ninguém sabia.
Nem tu com o teu sorriso
cúmplice,
o sorriso de miúda.
Ficávamos pelas esplanadas,
quase sem falar,
para quê?
Os teus últimos amigos,
à luz das lâmpadas,
estão tão sós.
E tu,
que os conhecias a todos,
onde estarás?
Não sei porque fiquei
por aqui.
Porque fui eu
que fiquei.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
As Tardes de Inverno na Baixa de Lisboa.
Miguel ensaiava Tancredo
porque adorava Monteverdi,
scones e chávenas de chá.
O eléctrico chorava
avenida abaixo
e ao fundo, a Outra Banda
afundava-se numa cinza
veneziana.
Era tão triste ver
os ferrys para lá
e para cá.
Às vezes apagavam-se
quando atracavam
em Cacilhas.
E nós deixávamos,
de os ver.
Miguel, entretanto,
voltava aos madrigais...
Eu abotoava o casaco
ao frio do entardecer.
porque adorava Monteverdi,
scones e chávenas de chá.
O eléctrico chorava
avenida abaixo
e ao fundo, a Outra Banda
afundava-se numa cinza
veneziana.
Era tão triste ver
os ferrys para lá
e para cá.
Às vezes apagavam-se
quando atracavam
em Cacilhas.
E nós deixávamos,
de os ver.
Miguel, entretanto,
voltava aos madrigais...
Eu abotoava o casaco
ao frio do entardecer.
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