sábado, 4 de dezembro de 2010

As Luzes.

As luzes contra a noite,
luzes dispersas e coloridas.

As pequenas luzinhas tracejadas
do avião invisível, que se lança
na pista e ao longe se ergue,
com um ruído forte de ventoinha.

As luzes ainda, luzes fracas
e tristes, na desértica zona industrial
a oeste da cidade.

Sei que os restaurantes da Baixa
se animam a esta hora, de luzes
feéricas, embutidas ou quebradas
por abat-jours alegres.

A luz, naquela janelinha
sem graça, pela noite fora.

As luzes apagadas
no bairro humilde.

As fitas de luzes da ponte alta
reflectidas na água escura do rio.

É uma luz calma,
a que me ilumina as páginas
deste livro que leio.

Por ela me deslumbro
e nem reparo na passagem
das horas.

Na escuridão, ouve-se o vulto
de outro avião que parte
para mais um voo internacional.

Só se vê a linha das suas
vigias acesas.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fernando, 30 de Novembro de 1935.

Se tu tivesses,
Fernando,
ouvido a canção dos Abba,
talvez te risses agora,
como eu me rio.

Estou tão cansado.

Tenho a cabeça
naturalmente cheia,
como sempre a tiveste também.

Cansado de mim mesmo,
pois então.

Cansado da Rhetorica
do Padre Figueiredo,
como tu também.

" Tenho hoje arrastado pela rua os pés e o grande cansaço ", ( 1 )
Fernando.

Deixa-me ao menos ouvir Fernando,
deixas?


( 1 ) Fernando Pessoa,  Livro do Desassossego por Bernardo Soares, Ática, 1982, Lisboa, p. 169.

sábado, 20 de novembro de 2010

A Feira. ( Para Arthur Rimbaud ).

As crianças correm para galgar
a pista dos carrinhos eléctricos.

Luzes estonteantes e um ruído infernal
abafam a voz rouca e fina,
que as convida para uma nova viagem.

Surgem depois as mulheres, suas mães,
espartilhadas, redondas, deslavadas,
nos vestidos vistosos de feira.

Vêm calmas e seguras,
agarradas ao pauzinho da maçã
cristalizada e do algodão doce.

Uma traz tatuada no ombro direito
uma sereia nua, de olhos azuis
e grandes pestanas,
grandes e grosseiras.

As crianças, agora,
deliram, tontas
e afogueadas.

Rodam tão depressa
que nem se vêem.

O Avião. ( Para Raymond Roussel ).

O bimotor surge da falésia,
quase não se vê porque o Sol
o esconde num espelho de luz.

Se não fosse pela pirueta que o faz
rasar a água e o mostra rangendo
de nova força ascensional,

dir-se-ia que na estrada próxima
passava um carro vagaroso,
anunciando por um megafone estridente
a estreia do circo, nessa noite, na vila.

Relatório de bens, de José Tolentino Mendonça.

Esta é a oferta:
prata e cobre, e linho fino,
e peles de carneiro tingidas de vermelho,
e peles de texugo,
um cordão de trinta côvados
e madeira preciosa

Na dobra escondida do mar
uma campainha
de ouro


( José Tolentino Mendonça, O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim, Setembro de 2009, p.44. )

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Anjo, de Robert Walser.

Um anjo como este o melhor que tem a fazer é ficar à espera de que alguém lhe diga que precisa dele. Muitas vezes, leva mais tempo do que ele pensa; ele tem mesmo de ser mais comedido, não deve julgar-se insubstituível. Pela minha parte, não gostaria de estar no lugar daquele de quem fiz um anjo. Fiz dele um deus, para que ele nunca mais viesse ao meu encontro em parte alguma, para que fosse imóvel como uma imagem e eu pudesse dirigir o meu olhar para ele conforme precisasse ou desejasse. Quase me faz pena que ele tenha julgado que eu sou curioso e que vou andar a correr atrás dele, agora que eu quase o trago metido no bolso ou que o tenho agarrado a mim como se ele fosse uma fita amarrada em redor da minha testa. Já não sou eu quem vai ter com ele, é o valor dele que me envolve, é o fulgor da sua luz que me rodeia. Quem soube dar soube também tomar para si. Tanto uma coisa como outra têm de ser praticadas. Ele nasceu da compaixão, mas pode bem acontecer que eu, o implorante, brinque com ele. Ele duvida, inquieta-se. Eu umas vezes creio, outras descreio, e ele tem de levar isso com paciência, esse querido.


Robert Walser, A Rosa, Relógio D´Água Editores, Janeiro de 2004, p.49.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Segredo 2.

Sagrados são os meus sonhos,
porque são só meus.

Sagrados,
os cumes,
os grandes abismos.

A luz é sagrada,
a luz que nos ilumina.

A luz que aquece,
que vivifica.

Sagrada a infância,
oh, a infância...

A família?
Sim, talvez seja, sim.

As palavras, pois.
Que outra forma tenho
de me ligar ao Mundo?

O meu filho
e é um desabafo meu.

Depois,
o que se vende e troca,
o desbarato das emoções
e dos sentimentos,
o corpo,
o que se perde,
nada disso tem significado.

Nada disso importa.

Podes expor,
deixa que eu o faça também,
não serve de nada,
não presta.