quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Poesia.

Nasceram do nada
estas palavras.

Soltaram-se à procura de uma voz,
uma outra voz viva.

Ou só do seu sentido.

Como se fossem mudas.

Uma voz doce,
virada para si,
quase inaudível.

São estas palavras que dão um nome
à minha serenidade.

Digo-as baixinho
e depois sei estar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Interlúdio.

Um avião faz-se aos céus,
desviando a rota para Sul.

O aeroporto da Portela é aqui muito perto.

Estou à saída da A1.

Tudo o mais
é Europa,
tudo o mais é o Mundo,
é diferente.

O avião?

Já não o vejo...

A Lagartixa e o Jacaré.

Um erro brutal,
o devaneio.
A distracção é doentia.

O tempo que se dedica
a cada pormenor.
A pequena minúcia,
a minudência,
é, é...

Tudo o mais é imaginação,
é desvario.

É um desvio da razão,
um erro de consciência.

Só os poetas,
só Fernando Pessoa...

Frustração.

Foi frustrante o resto do tempo que passámos ao almoço.
Sentados no murinho, a pessoa do meio não se calou mais
e estava aborrecida, pelo menos pareceu.

Um avião fazia-se ao ar, desviando a rota para Sul.
A Portela é aqui tão perto, estamos à saída da auto-estrada A1,
tudo o mais é Europa, tudo o mais é o Mundo, é diferente.

Nós não, nós não queríamos ver, estávamos ali de castigo,
estávamos só a olhar. Depois o campo parecia um descampado,
via-se o lixo das construções. E ao longe, empertigados na ravina,
uns prediozitos pareciam querer ser gente e ficar a olhar,
para nós, nós ali os três.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Bagaço em Setembro, de Cesare Pavese.

As manhãs passam claras e desertas
nas margens do rio que de madrugada se enevoa
e escurece o seu verde enquanto espera o sol.
O tabaco que vendem na última casa
ainda húmida, na orla dos prados, tem uma cor
quase negra e um sabor sumarento: o fumo é azulado.
Também têm bagaço, da cor da água.

Chegou o momento em que tudo pára
e amadurece. As árvores ao longe estão quietas:
tornaram-se mais escuras. Escondem frutos
que ao mínimo abanão cairiam. As nuvens esparsas
têm uma polpa madura. Ao loge, nas avenidas,
todas as casas amadurecem à calidez do céu.

A esta hora só se vêem mulheres. As mulheres não fumam
e não bebem, sabem simplesmente estar ao sol
e recebê-lo tépido, como se fossem frutos.
O ar, cru por causa da névoa, bebe-se aos golos
como bagaço, todas as coisas exalam um sabor a bagaço.
Até a água do rio bebeu as margens
e macera-as no fundo, sob o céu. As ruas
são como as mulheres, amadurecem paradas.

A esta hora todos devíamos parar
na rua e ver como tudo amadurece.
Há até uma brisa que não altera as nuvens,
mas que basta para dirigir o fumo azulado
sem o romper: é um novo sabor que passa.
E o tabaco impregnou-se de bagaço. E assim as mulheres
não serão as únicas a gozar a manhã.


Cesare Pavese, op. cit., pp.163 e 165.

Mulheres Apaixonadas, de Cesare Pavese.

As raparigas descem para a água ao fim da tarde,
quando o mar se esvai, estendido. No bosque
cada folha estremece quando emergem prudentes
na areia e se sentam nas dunas. A espuma
alonga-se em jogos inquietos na água distante.

As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se agarram às pernas e aos ombros:
o que está nu do corpo. Sobem rápidas para as dunas
e chamam-se pelo nome, olhando à volta.
Também as sombras no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se mexer, incertas,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
é um refúgio tranquilo ao pôr-do-sol,
mais do que o areal, mas as raparigas morenas
gostam se sentar à vista de todos, na toalha em desordem.

Estão todas encolhidas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar plano
como um prado ao fim da tarde. Ousaria alguma delas
deitar-se agora nua na erva dum prado? Do mar
saltariam as algas que afloram os pés,
para agarrar o seu corpo trémulo e envolvê-lo.
No mar há olhos que às vezes reluzem.

Aquela estrangeira desconhecida, que nadava de noite
sozinha e nua no escuro quando muda a lua,
desapareceu uma noite e nunca mais volta.
Era alta e devia ser duma brancura deslumbrante
para que do fundo do mar aqueles olhos a alcançassem.


Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Edições Cotovia, Lisboa, 1997, pp. 89 e 91.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Chuva.

Cai agora a chuva,
monótona e silenciosa.

Vejo-a na contra-luz do candeeiro,
persistente e fresca, quase transparente.

Eu esperava por este dia,
por nenhum motivo especial.

Apenas pelo prazer de ver tudo lavado
e nítido, a rua, as árvores, os carros.

E por sentir que assim a Vida se renova
e o Mundo avança na sua lenta rotação.