Um avião faz-se aos céus,
desviando a rota para Sul.
O aeroporto da Portela é aqui muito perto.
Estou à saída da A1.
Tudo o mais
é Europa,
tudo o mais é o Mundo,
é diferente.
O avião?
Já não o vejo...
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
A Lagartixa e o Jacaré.
Um erro brutal,
o devaneio.
A distracção é doentia.
O tempo que se dedica
a cada pormenor.
A pequena minúcia,
a minudência,
é, é...
Tudo o mais é imaginação,
é desvario.
É um desvio da razão,
um erro de consciência.
Só os poetas,
só Fernando Pessoa...
o devaneio.
A distracção é doentia.
O tempo que se dedica
a cada pormenor.
A pequena minúcia,
a minudência,
é, é...
Tudo o mais é imaginação,
é desvario.
É um desvio da razão,
um erro de consciência.
Só os poetas,
só Fernando Pessoa...
Frustração.
Foi frustrante o resto do tempo que passámos ao almoço.
Sentados no murinho, a pessoa do meio não se calou mais
e estava aborrecida, pelo menos pareceu.
Um avião fazia-se ao ar, desviando a rota para Sul.
A Portela é aqui tão perto, estamos à saída da auto-estrada A1,
tudo o mais é Europa, tudo o mais é o Mundo, é diferente.
Nós não, nós não queríamos ver, estávamos ali de castigo,
estávamos só a olhar. Depois o campo parecia um descampado,
via-se o lixo das construções. E ao longe, empertigados na ravina,
uns prediozitos pareciam querer ser gente e ficar a olhar,
para nós, nós ali os três.
Sentados no murinho, a pessoa do meio não se calou mais
e estava aborrecida, pelo menos pareceu.
Um avião fazia-se ao ar, desviando a rota para Sul.
A Portela é aqui tão perto, estamos à saída da auto-estrada A1,
tudo o mais é Europa, tudo o mais é o Mundo, é diferente.
Nós não, nós não queríamos ver, estávamos ali de castigo,
estávamos só a olhar. Depois o campo parecia um descampado,
via-se o lixo das construções. E ao longe, empertigados na ravina,
uns prediozitos pareciam querer ser gente e ficar a olhar,
para nós, nós ali os três.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Bagaço em Setembro, de Cesare Pavese.
As manhãs passam claras e desertas
nas margens do rio que de madrugada se enevoa
e escurece o seu verde enquanto espera o sol.
O tabaco que vendem na última casa
ainda húmida, na orla dos prados, tem uma cor
quase negra e um sabor sumarento: o fumo é azulado.
Também têm bagaço, da cor da água.
Chegou o momento em que tudo pára
e amadurece. As árvores ao longe estão quietas:
tornaram-se mais escuras. Escondem frutos
que ao mínimo abanão cairiam. As nuvens esparsas
têm uma polpa madura. Ao loge, nas avenidas,
todas as casas amadurecem à calidez do céu.
A esta hora só se vêem mulheres. As mulheres não fumam
e não bebem, sabem simplesmente estar ao sol
e recebê-lo tépido, como se fossem frutos.
O ar, cru por causa da névoa, bebe-se aos golos
como bagaço, todas as coisas exalam um sabor a bagaço.
Até a água do rio bebeu as margens
e macera-as no fundo, sob o céu. As ruas
são como as mulheres, amadurecem paradas.
A esta hora todos devíamos parar
na rua e ver como tudo amadurece.
Há até uma brisa que não altera as nuvens,
mas que basta para dirigir o fumo azulado
sem o romper: é um novo sabor que passa.
E o tabaco impregnou-se de bagaço. E assim as mulheres
não serão as únicas a gozar a manhã.
Cesare Pavese, op. cit., pp.163 e 165.
nas margens do rio que de madrugada se enevoa
e escurece o seu verde enquanto espera o sol.
O tabaco que vendem na última casa
ainda húmida, na orla dos prados, tem uma cor
quase negra e um sabor sumarento: o fumo é azulado.
Também têm bagaço, da cor da água.
Chegou o momento em que tudo pára
e amadurece. As árvores ao longe estão quietas:
tornaram-se mais escuras. Escondem frutos
que ao mínimo abanão cairiam. As nuvens esparsas
têm uma polpa madura. Ao loge, nas avenidas,
todas as casas amadurecem à calidez do céu.
A esta hora só se vêem mulheres. As mulheres não fumam
e não bebem, sabem simplesmente estar ao sol
e recebê-lo tépido, como se fossem frutos.
O ar, cru por causa da névoa, bebe-se aos golos
como bagaço, todas as coisas exalam um sabor a bagaço.
Até a água do rio bebeu as margens
e macera-as no fundo, sob o céu. As ruas
são como as mulheres, amadurecem paradas.
A esta hora todos devíamos parar
na rua e ver como tudo amadurece.
Há até uma brisa que não altera as nuvens,
mas que basta para dirigir o fumo azulado
sem o romper: é um novo sabor que passa.
E o tabaco impregnou-se de bagaço. E assim as mulheres
não serão as únicas a gozar a manhã.
Cesare Pavese, op. cit., pp.163 e 165.
Mulheres Apaixonadas, de Cesare Pavese.
As raparigas descem para a água ao fim da tarde,
quando o mar se esvai, estendido. No bosque
cada folha estremece quando emergem prudentes
na areia e se sentam nas dunas. A espuma
alonga-se em jogos inquietos na água distante.
As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se agarram às pernas e aos ombros:
o que está nu do corpo. Sobem rápidas para as dunas
e chamam-se pelo nome, olhando à volta.
Também as sombras no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se mexer, incertas,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
é um refúgio tranquilo ao pôr-do-sol,
mais do que o areal, mas as raparigas morenas
gostam se sentar à vista de todos, na toalha em desordem.
Estão todas encolhidas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar plano
como um prado ao fim da tarde. Ousaria alguma delas
deitar-se agora nua na erva dum prado? Do mar
saltariam as algas que afloram os pés,
para agarrar o seu corpo trémulo e envolvê-lo.
No mar há olhos que às vezes reluzem.
Aquela estrangeira desconhecida, que nadava de noite
sozinha e nua no escuro quando muda a lua,
desapareceu uma noite e nunca mais volta.
Era alta e devia ser duma brancura deslumbrante
para que do fundo do mar aqueles olhos a alcançassem.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Edições Cotovia, Lisboa, 1997, pp. 89 e 91.
quando o mar se esvai, estendido. No bosque
cada folha estremece quando emergem prudentes
na areia e se sentam nas dunas. A espuma
alonga-se em jogos inquietos na água distante.
As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se agarram às pernas e aos ombros:
o que está nu do corpo. Sobem rápidas para as dunas
e chamam-se pelo nome, olhando à volta.
Também as sombras no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se mexer, incertas,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
é um refúgio tranquilo ao pôr-do-sol,
mais do que o areal, mas as raparigas morenas
gostam se sentar à vista de todos, na toalha em desordem.
Estão todas encolhidas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar plano
como um prado ao fim da tarde. Ousaria alguma delas
deitar-se agora nua na erva dum prado? Do mar
saltariam as algas que afloram os pés,
para agarrar o seu corpo trémulo e envolvê-lo.
No mar há olhos que às vezes reluzem.
Aquela estrangeira desconhecida, que nadava de noite
sozinha e nua no escuro quando muda a lua,
desapareceu uma noite e nunca mais volta.
Era alta e devia ser duma brancura deslumbrante
para que do fundo do mar aqueles olhos a alcançassem.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Edições Cotovia, Lisboa, 1997, pp. 89 e 91.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A Chuva.
Cai agora a chuva,
monótona e silenciosa.
Vejo-a na contra-luz do candeeiro,
persistente e fresca, quase transparente.
Eu esperava por este dia,
por nenhum motivo especial.
Apenas pelo prazer de ver tudo lavado
e nítido, a rua, as árvores, os carros.
E por sentir que assim a Vida se renova
e o Mundo avança na sua lenta rotação.
monótona e silenciosa.
Vejo-a na contra-luz do candeeiro,
persistente e fresca, quase transparente.
Eu esperava por este dia,
por nenhum motivo especial.
Apenas pelo prazer de ver tudo lavado
e nítido, a rua, as árvores, os carros.
E por sentir que assim a Vida se renova
e o Mundo avança na sua lenta rotação.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Sem Palavras.
O teu silêncio talvez seja
o ulular sombrio de aves
nocturnas,
ou a fluidez serena de gaivotas
que rasgam o vento,
não sei...
Sei que emudeci,
inquieto,
como se já não respirasse
nesta metrópole imensa,
e, desorientado,
não encontrasse o formigueiro,
a avenida circular, a praça,
o regresso.
Dei comigo a descer a falésia
e a correr para o mar.
Então sim, pude ouvi-lo,
a esse imenso oceano,
pensativo, teimoso,
rumuroso,
ruminante.
E soube que não sou feliz,
sem ter pronunciado
uma única palavra também.
o ulular sombrio de aves
nocturnas,
ou a fluidez serena de gaivotas
que rasgam o vento,
não sei...
Sei que emudeci,
inquieto,
como se já não respirasse
nesta metrópole imensa,
e, desorientado,
não encontrasse o formigueiro,
a avenida circular, a praça,
o regresso.
Dei comigo a descer a falésia
e a correr para o mar.
Então sim, pude ouvi-lo,
a esse imenso oceano,
pensativo, teimoso,
rumuroso,
ruminante.
E soube que não sou feliz,
sem ter pronunciado
uma única palavra também.
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