Custou-me tanto que partisses...
O meu coração agora
é um século dezanove
feito de carroças
e lamaçais.
Crianças descalças e andrajosas
que vêm à porta dos casebres
ver o comboio passar.
O pobre do Antunes, coitado,
que enriqueceu na padaria
e fica com flatulência
ao almoço.
Tu partiste
e os cantores pimba
encantam as sopeiras
de cima do palco.
Há lágrimas nos olhos
das adolescentes afegãs.
Sonhos que a brisa devolve
à beira-mar.
Ficou a casa vazia,
as janelas abertas,
as portas por fechar.
E há um cão
que não pára de ganir.
Um elefante que entrou
sozinho na floresta densa.
E a água jorra intensa
como labaredas de dor.
E depois há o vazio...
Ah, o vazio...
sábado, 14 de agosto de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Desencontro.
Estás sentada na esplanada
e não vês,
a água vem subindo a areia
húmida,
e estende-se,
húmida também,
na escuridão
da noite.
Borbulha a tónica no teu copo
e não vês,
a areia que brilha
na noite
escura.
Vozes...
Zut!
São palavras
impossíveis,
as dessas vozes
caladas...
Sonhos frustrados,
desejos que a boa moral
reprimiu.
E tu,
bebericando a água
com limão,
nâo vês...
O mar rebenta
em espuma húmida
na noite escura...
Tu não vês...
Zut!
e não vês,
a água vem subindo a areia
húmida,
e estende-se,
húmida também,
na escuridão
da noite.
Borbulha a tónica no teu copo
e não vês,
a areia que brilha
na noite
escura.
Vozes...
Zut!
São palavras
impossíveis,
as dessas vozes
caladas...
Sonhos frustrados,
desejos que a boa moral
reprimiu.
E tu,
bebericando a água
com limão,
nâo vês...
O mar rebenta
em espuma húmida
na noite escura...
Tu não vês...
Zut!
Pop.
Não era teu o psiché,
a caixinha da bailarina,
o pó-de-arroz.
Não eram tuas
as plumas,
os cisnes
não eram teus,
as essências,
o espelho.
A pop-ácida
retro.
Não era teu o voo
Concorde,
o spleen,
Paris.
Não era teu
nada disto.
Só esse azul
cobalto.
E o silêncio.
a caixinha da bailarina,
o pó-de-arroz.
Não eram tuas
as plumas,
os cisnes
não eram teus,
as essências,
o espelho.
A pop-ácida
retro.
Não era teu o voo
Concorde,
o spleen,
Paris.
Não era teu
nada disto.
Só esse azul
cobalto.
E o silêncio.
Campo de Flores, de João de Deus.
DEDICAÇÃO
A António Nobre
Porque é tão alegre a carta
Que acabas de me escrever?
Tens tu já a alma farta
De suspirar e gemer?...
É que quando nos devora
Uma entranhável paixão,
Soffra a gente muito embora,
Mas a prenda amada não!
Eu sei, sei que tu me escondes
As tuas lágrimas, sei;
E é assim que correspondes
Ao conceito que formei:
Que não há anjos dotados
De uma indole melhor;
E que esses olhos rasgados
Encobrem-me só a dor!
Viu um dia um viajante,
Escriptor de toda a fé,
Em Africa uma elephante
Vir mais um filhinho ao pé;
Os indigenas começam
A atirar-lhes; porém,
Quantas settas arremessam
Todas se cravam na mãe;
Porque mettendo-se a pobre
Entre o filho e o gentio,
De tal maneira o encobre,
Que elle nenhuma o feriu;
E ella andando mansamente
Lambendo-o, para mostrar
Que não vê, não ouve ou sente
Cousa alguma de espantar,
O consegue pôr a salvo,
Com toda a satisfação
De ter sido só o alvo
Dos tiros da multidão!
Ha no mundo acaso indício
De dedicação maior,
Prova, extremo, sacrificio
De mais verdadeiro amor?...
Tu és como a elephante
D´esta anecdota exemplar...
( Se bem que a mais rara amante
Não passa da mãe vulgar! )
Ir exhalar um gemido,
Reprimil-o dentro em nós,
Por que o não oiça um ouvido
A quem magôa essa voz:
Dizer, n´uma dor immensa,
Tem-te! á lagrima que está
De uma palpebra suspensa
A desprender-se-nos já,
É de um amor verdadeiro,
É de um infinito amor!
E por isso te amo e quero
Infinitamente, flor!
João de Deus, Campo de Flores, Livraria Bertrand, 9ª edição, s/ data, pp.180, 181 e 182.
A António Nobre
Porque é tão alegre a carta
Que acabas de me escrever?
Tens tu já a alma farta
De suspirar e gemer?...
É que quando nos devora
Uma entranhável paixão,
Soffra a gente muito embora,
Mas a prenda amada não!
Eu sei, sei que tu me escondes
As tuas lágrimas, sei;
E é assim que correspondes
Ao conceito que formei:
Que não há anjos dotados
De uma indole melhor;
E que esses olhos rasgados
Encobrem-me só a dor!
Viu um dia um viajante,
Escriptor de toda a fé,
Em Africa uma elephante
Vir mais um filhinho ao pé;
Os indigenas começam
A atirar-lhes; porém,
Quantas settas arremessam
Todas se cravam na mãe;
Porque mettendo-se a pobre
Entre o filho e o gentio,
De tal maneira o encobre,
Que elle nenhuma o feriu;
E ella andando mansamente
Lambendo-o, para mostrar
Que não vê, não ouve ou sente
Cousa alguma de espantar,
O consegue pôr a salvo,
Com toda a satisfação
De ter sido só o alvo
Dos tiros da multidão!
Ha no mundo acaso indício
De dedicação maior,
Prova, extremo, sacrificio
De mais verdadeiro amor?...
Tu és como a elephante
D´esta anecdota exemplar...
( Se bem que a mais rara amante
Não passa da mãe vulgar! )
Ir exhalar um gemido,
Reprimil-o dentro em nós,
Por que o não oiça um ouvido
A quem magôa essa voz:
Dizer, n´uma dor immensa,
Tem-te! á lagrima que está
De uma palpebra suspensa
A desprender-se-nos já,
É de um amor verdadeiro,
É de um infinito amor!
E por isso te amo e quero
Infinitamente, flor!
João de Deus, Campo de Flores, Livraria Bertrand, 9ª edição, s/ data, pp.180, 181 e 182.
António Nobre...
" Dada a aproximação da Primavera, quase sempre agreste à beira-mar, é necessário que o doente saia da Foz. Animado com a perspectiva de dar realização aos seus planos literários, parte para o Seixo nos primeiros dias de Março.
"" Chegado ao Seixo, a despeito da fadiga da viagem, sentiu-se bem impressionado "" - continua a comovida narração de Augusto Nobre - "" tanto mais que sabia que lhe não faltariam, como sempre, as visitas do Dr. Aníbal Lourenço, seu primo, médico em Cete, amigo dedicadíssimo e espírito sempre interessado em assuntos literários. Mas a doença progredia, como sempre, e era já impossível levar a cabo o acalentado plano duma redacção definitiva dos versos a publicar. A fadiga era enorme, a febre subia impiedosamente, e a falta de apetite auxiliava a horrível tarefa do seu enfraquecimento.""
Pouco depois - em 16 de Março, dois dias antes do fim - o derradeiro apelo. Um pedido angustiante de socorro, as últimas linhas traçadas pela sua mão: "" Continuo mal e não posso mais estar aqui. Os ares são fortes de mais. Morro se continuo. ""
Não continuou... mas era entretanto chegado o momento - aquele desde sempre escrito no livro do destino -em que acabaria de vez toda a canseira de uma vida predestinada para a dor. Mas dor - e ele sabia-o - que gera a glória e a imortalidade.
Um destino idêntico ao do Luís...
Aquele último grito da carta do poeta, mais apelo da morte que sinal de vida, é logo ouvido por Augusto Nobre que de Lisboa, onde se encontrava, corre directamente ao Seixo para no dia seguinte acompanhar o irmão nos seus últimos passos na terra.
Chegam à Foz ( "" Que lindo que isto é! "" ), quando a tarde começa a declinar.
Na manhã seguinte - era o dia 18 de Março de 1900 - o poeta apenas espera, para se extinguir na paz e na resignação, aqueles braços fraternos que o hão-de amparar no último alento.
"" Sentando-me junto da cama, disse-me, passados momentos que se sentia muito mal e que ia morrer. E sem que lhe notasse qualquer sintoma de agonia, ele, que estava sentado na cama recostado em almofadas, inclinou-se para mim, abraçou-me e assim ficou. ""
Guilherme de Castilho, António Nobre: a obra e o homem, Arcádia, 2ª edição, Setembro de 1977, pp.97 e 98.
"" Chegado ao Seixo, a despeito da fadiga da viagem, sentiu-se bem impressionado "" - continua a comovida narração de Augusto Nobre - "" tanto mais que sabia que lhe não faltariam, como sempre, as visitas do Dr. Aníbal Lourenço, seu primo, médico em Cete, amigo dedicadíssimo e espírito sempre interessado em assuntos literários. Mas a doença progredia, como sempre, e era já impossível levar a cabo o acalentado plano duma redacção definitiva dos versos a publicar. A fadiga era enorme, a febre subia impiedosamente, e a falta de apetite auxiliava a horrível tarefa do seu enfraquecimento.""
Pouco depois - em 16 de Março, dois dias antes do fim - o derradeiro apelo. Um pedido angustiante de socorro, as últimas linhas traçadas pela sua mão: "" Continuo mal e não posso mais estar aqui. Os ares são fortes de mais. Morro se continuo. ""
Não continuou... mas era entretanto chegado o momento - aquele desde sempre escrito no livro do destino -em que acabaria de vez toda a canseira de uma vida predestinada para a dor. Mas dor - e ele sabia-o - que gera a glória e a imortalidade.
Um destino idêntico ao do Luís...
Aquele último grito da carta do poeta, mais apelo da morte que sinal de vida, é logo ouvido por Augusto Nobre que de Lisboa, onde se encontrava, corre directamente ao Seixo para no dia seguinte acompanhar o irmão nos seus últimos passos na terra.
Chegam à Foz ( "" Que lindo que isto é! "" ), quando a tarde começa a declinar.
Na manhã seguinte - era o dia 18 de Março de 1900 - o poeta apenas espera, para se extinguir na paz e na resignação, aqueles braços fraternos que o hão-de amparar no último alento.
"" Sentando-me junto da cama, disse-me, passados momentos que se sentia muito mal e que ia morrer. E sem que lhe notasse qualquer sintoma de agonia, ele, que estava sentado na cama recostado em almofadas, inclinou-se para mim, abraçou-me e assim ficou. ""
Guilherme de Castilho, António Nobre: a obra e o homem, Arcádia, 2ª edição, Setembro de 1977, pp.97 e 98.
Subscrever:
Mensagens (Atom)