sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Desencontro.

Estás sentada na esplanada
e não vês,
a água vem subindo a areia
húmida,
e estende-se,
húmida também,
na escuridão
da noite.

Borbulha a tónica no teu copo
e não vês,
a areia que brilha
na noite
escura.

Vozes...

Zut!

São palavras
impossíveis,
as dessas vozes
caladas...

Sonhos frustrados,
desejos que a boa moral
reprimiu.

E tu,
bebericando a água
com limão,
nâo vês...

O mar rebenta
em espuma húmida
na noite escura...

Tu não vês...

Zut!

Pop.

Não era teu o psiché,
a caixinha da bailarina,
o pó-de-arroz.

Não eram tuas
as plumas,
os cisnes
não eram teus,
as essências,
o espelho.

A pop-ácida
retro.

Não era teu o voo
Concorde,
o spleen,
Paris.

Não era teu
nada disto.

Só esse azul
cobalto.

E o silêncio.

Campo de Flores, de João de Deus.

DEDICAÇÃO
A António Nobre

Porque é tão alegre a carta
Que acabas de me escrever?
Tens tu já a alma farta
De suspirar e gemer?...

É que quando nos devora
Uma entranhável paixão,
Soffra a gente muito embora,
Mas a prenda amada não!

Eu sei, sei que tu me escondes
As tuas lágrimas, sei;
E é assim que correspondes
Ao conceito que formei:

Que não há anjos dotados
De uma indole melhor;
E que esses olhos rasgados
Encobrem-me só a dor!

Viu um dia um viajante,
Escriptor de toda a fé,
Em Africa uma elephante
Vir mais um filhinho ao pé;

Os indigenas começam
A atirar-lhes; porém,
Quantas settas arremessam
Todas se cravam na mãe;

Porque mettendo-se a pobre
Entre o filho e o gentio,
De tal maneira o encobre,
Que elle nenhuma o feriu;

E ella andando mansamente
Lambendo-o, para mostrar
Que não vê, não ouve ou sente
Cousa alguma de espantar,

O consegue pôr a salvo,
Com toda a satisfação
De ter sido só o alvo
Dos tiros da multidão!

Ha no mundo acaso indício
De dedicação maior,
Prova, extremo, sacrificio
De mais verdadeiro amor?...

Tu és como a elephante
D´esta anecdota exemplar...
( Se bem que a mais rara amante
Não passa da mãe vulgar! )

Ir exhalar um gemido,
Reprimil-o dentro em nós,
Por que o não oiça um ouvido
A quem magôa essa voz:

Dizer, n´uma dor immensa,
Tem-te! á lagrima que está
De uma palpebra suspensa
A desprender-se-nos já,

É de um amor verdadeiro,
É de um infinito amor!
E por isso te amo e quero
Infinitamente, flor!

João de Deus, Campo de Flores, Livraria Bertrand, 9ª edição, s/ data, pp.180, 181 e 182.

Incêndios em Portugal 2.

" Ah, fiquei triste por abandonar a minha casa.
Fiquei lá com tudo... "

António Nobre...

" Dada a aproximação da Primavera, quase sempre agreste à beira-mar, é necessário que o doente saia da Foz. Animado com a perspectiva de dar realização aos seus planos literários, parte para o Seixo nos primeiros dias de Março.
"" Chegado ao Seixo, a despeito da fadiga da viagem, sentiu-se bem impressionado "" - continua a comovida narração de Augusto Nobre - "" tanto mais que sabia que lhe não faltariam, como sempre, as visitas do Dr. Aníbal Lourenço, seu primo, médico em Cete, amigo dedicadíssimo e espírito sempre interessado em assuntos literários. Mas a doença progredia, como sempre, e era já impossível levar a cabo o acalentado plano duma redacção definitiva dos versos a publicar. A fadiga era enorme, a febre subia impiedosamente, e a falta de apetite auxiliava a horrível tarefa do seu enfraquecimento.""
Pouco depois - em 16 de Março, dois dias antes do fim - o derradeiro apelo. Um pedido angustiante de socorro, as últimas linhas traçadas pela sua mão: "" Continuo mal e não posso mais estar aqui. Os ares são fortes de mais. Morro se continuo. ""
Não continuou... mas era entretanto chegado o momento - aquele desde sempre escrito no livro do destino -em que acabaria de vez toda a canseira de uma vida predestinada para a dor. Mas dor - e ele sabia-o - que gera a glória e a imortalidade.
Um destino idêntico ao do Luís...
Aquele último grito da carta do poeta, mais apelo da morte que sinal de vida, é logo ouvido por Augusto Nobre que de Lisboa, onde se encontrava, corre directamente ao Seixo para no dia seguinte acompanhar o irmão nos seus últimos passos na terra.
Chegam à Foz ( "" Que lindo que isto é! "" ), quando a tarde começa a declinar.
Na manhã seguinte - era o dia 18 de Março de 1900 - o poeta apenas espera, para se extinguir na paz e na resignação, aqueles braços fraternos que o hão-de amparar no último alento.
"" Sentando-me junto da cama, disse-me, passados momentos que se sentia muito mal e que ia morrer. E sem que lhe notasse qualquer sintoma de agonia, ele, que estava sentado na cama recostado em almofadas, inclinou-se para mim, abraçou-me e assim ficou. ""

Guilherme de Castilho, António Nobre: a obra e o homem, Arcádia, 2ª edição, Setembro de 1977, pp.97 e 98.

Incêndios em Portugal.

" Estamos à conta de Deus. "

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Infância.

No passado em que eu fui menino
( qual outro me interessaria mais? )
tão feliz eu era!

O Mundo,
o Mundo então
não existia ainda.

Aquele que eu via,
era uma coisa de velhos serôdios,
de pessoas sem graça,
mortas de tédio,
de medos
e ilusões desfeitas.

De luzes
quase apagadas.

Era eu menino
e o futuro tão menino
como eu.

Hoje trago esse menino passado
em mim.

E o futuro,
o futuro ficou por ali,
é apenas sonho
e saudade.