sábado, 19 de junho de 2010

José Saramago.

A trama foi sendo tecida a negro
e as vírgulas,
as vírgulas desenhando cúpulas magníficas,
vidros nas portadas dos cafés em princípio de século,
grutas,
jangadas fantásticas,
elefantes,
barcarolas.

Um nome mágico e austero
e outro, nome doce de mulher...

Por caminhos que as ervas,
daninhas, cobrem,
estás tu hoje,
soprando a brisa,
agitando as copas.

E não é que desse sopro leve,
se vão soltando letras,
vírgulas,
maiúsculas,
parágrafos,
numa mancha negra de bordado?...

E é aí que tu estarás
para sempre,
encruzilhando as linhas
e a fazer-nos pensar.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Pardais.

A tarde desce no bico dos pardais,
que escolhem estes plátanos
para refúgio instável na escuridão
que aí vem.

As suas pálpebras,
membrana subconsciente
da leveza da vida,
vão engolir a abóbada
barroca,
absurda,
doutro dia que acabou.

Pudesse eu adormecer assim,
tão leve e sem sonhar...

Descobrir-se-ia em mim,
escondido pela folhagem,
a mesma inocência,
a mesma pulsação,
tão subtil.

domingo, 13 de junho de 2010

POÉTICA ( II ). Vinicius de Moraes.

COM as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitectura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo.
( Um templo sem Deus. )

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
- Entrai, irmãos meus!

Vinicius de Moraes, O Poeta Apresenta O Poeta, Antologia seleccionada e prefaciada por Alexandre O `Neill, Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote, 2ª Edição, Julho de 1969, p.155.

( Dedicado à minha primeira leitora, Dra. Marisa Queiroz, que teve a simpatia de me dar alguma da sua atenção. Com que prazer recebo alguém que me lê de tão longe... )

sábado, 12 de junho de 2010

Delírio Amoroso.

- Espera um pouco!
Os convidados vão chegar...

As velas só serão acesas
quando todos estiverem no átrio,
prestes a entrar...

- Tudo pronto na cozinha?
Quero o foie-gras fresco
e o Alvarinho a 6ºC.

As bolachinhas salgadas?
E as tostas de pão de alho?

Deixem ficar só a toalha à mesa,
essa linda toalha de linho,
debruada a tricot pela minha avó!

Os pratos e os talheres ficam no aparador.
Depois,
virão preparar a mesa.

- Tu...
Espera um pouco ainda!...

Este ramo de orquídeas
é para ti!...

Deixa-o nesse lindo jarro verde,
no closet.

Os convidados estão a chegar.

Tourada.

Oh, sabe bem
ser o canastrão,
quando apetece.

Ridículo ao cravar
as últimas farpas
nas costas do animal
moribundo.

E todo galo depois,
a pedir o aplauso
do público,
gritando em falsete,
" Olé! "

Fado.

Cantei só uma vez e doeu,
pois marcou-me para sempre.

Trago no coração
dois botões de rosa
que não florescem.

Apenas incham
e sangram
a fatalidade
do meu destino.

Manada Selvagem.

A força de tantos cavalos
supera a sua agilidade
e ultrapassa mesmo
toda a sua graciosidade.

São alavancas,
os seus quadris.

E esgares doridos,
o seu resfolegar.

Avançam cegos na pradaria
e têm a força de touros
quando começam
a escouçear.