sábado, 12 de junho de 2010

Tourada.

Oh, sabe bem
ser o canastrão,
quando apetece.

Ridículo ao cravar
as últimas farpas
nas costas do animal
moribundo.

E todo galo depois,
a pedir o aplauso
do público,
gritando em falsete,
" Olé! "

Fado.

Cantei só uma vez e doeu,
pois marcou-me para sempre.

Trago no coração
dois botões de rosa
que não florescem.

Apenas incham
e sangram
a fatalidade
do meu destino.

Manada Selvagem.

A força de tantos cavalos
supera a sua agilidade
e ultrapassa mesmo
toda a sua graciosidade.

São alavancas,
os seus quadris.

E esgares doridos,
o seu resfolegar.

Avançam cegos na pradaria
e têm a força de touros
quando começam
a escouçear.

domingo, 30 de maio de 2010

Noite de Maio.

Tombam as noites frescas
pelas esplanadas,
e só se vislumbra, à volta,
o interior apagado
dos apartamentos
e as janelas esquecidas,
abertas de par em par.

As crianças correm
às escuras
e as mesas estão cheias
de travessas de caracóis
e ruidosos copos de cerveja.

Eu como um prego picante,
em silêncio.

E revivo a nostalgia
dos Verões de África,
que me aperta,
ainda hoje,
o meu coração solitário.

De resto, não gosto
deste desleixo,
destes corpos sujos
em chinelos de plástico.

Mas é assim a cidade,
nas esplanadas, à noite.

E a mim, apetece-me sair.

A noite dentro de casa
abafa e oprime.

O EX-POETA. ( Malcolm Lowry )

A madeira flutua na água. As árvores
Curvam-se, lá é verde, a sombra.
Uma criança caminha no prado,
Há uma serração, vista da janela.
Conheci outrora um poeta que concluiu:
O amor não se foi, apenas as palavras do amor,
Disse ele. Foram-se as palavras
Com as quais teria pintado aquele barco.
O vermelho de chumbo nunca se impõe
Nos lívidos poentes do Cabo.
Disse-lhe que sim, que tinha toda a razão.
Ele sorriu e disse: um dia destes
Deixarei este lugar como as palavras me deixaram a mim.


Malcolm Lowry, As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, selecção e tradução José Agostinho Baptista, Assírio e Alvim, Lisboa, 2005, p.81.

sábado, 29 de maio de 2010

Eternidade.

Outro cigarro,
a mesma esfinge.

A noite não desce,
a manhã não sobe.

Rodopiam os morcegos
de volta do candeeiro.

E passa sorrateiro
um gato negro,
debaixo dos automóveis.

Uma aragem fresca
vem varrer a rua
de beatas
e papéis velhos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Noite Calma.

Estende-se a noite pelas ruas
cada vez mais desertas,
cada vez mais tardias.

A cidade recolheu-se
há muito
para dormir.

Vou à janela e demoro-me
com um cigarro.

Deixo-me estar depois,
na companhia de mim só.

Até me diluir
completamente
na escuridão
da madrugada.