domingo, 16 de maio de 2010

Silêncio, Noite Escura, Solidão.

O vulto imóvel
sentado há horas
e o fumo lento
dum cigarro esquecido.

Houve um dia...
Uma manhã azul,
como são as manhãs
de Verão,
as cores vivas
e o alegre piar
das gaivotas...

O rolo da espuma
na quebra-mar...

O aroma adocicado
dos protectores solares...

As crianças que brincam
na areia húmida?

Há quanto tempo foi?
E porquê, lembrar isso agora?

Houve outra dia,
era de noite...
A viagem,
os faróis acesos
dos automóveis,
o espaço invisível
à volta...

Uma televisão ligada,
algures no prédio.
Ou será um transistor?

O gato que dorme,
enroscado no sofá,
em silêncio.

Há quanto tempo já,
as correrias saudáveis
na Praia do Guincho?

E para quê
lembrar isso agora?

Domingo de Manhã.

Sopra o vento fino e agita
as folhas dos plátanos
numa dança leve
e o sol brilha e aquece a rua
desde manhã cedo.

No entanto,
inquieta-me o voo desequilibrado
dos pombos
e a sua incompreensível
errância.

Será que estão com fome?

Deslumbramento.

Só por palavras
poderei designar
a imensidão
do céu azul,
sobre as nuvens densas.

O mistério
da dupla articulação.

E o corpo duma voz
erecta,
sensual,
que exprime
a razão
e os dias.

As folhas expelidas
pelo vento
que o Tempo secou.

E a selectividade áspera
dum herbário antigo
feito de palavras
que não morrem nunca.

O deslumbramento
da última palavra?

Talvez sim,
talvez.

Confissão.

Sob um céu límpido
como a água pura
e um olhar de fogo
faiscando o Universo,

eu cheguei
ao limiar
de mim mesmo

e dei-me
ao vento,

à ondulação forte

e ao bailado
da Vida.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Sonho.

Não sei explicar
as palavras com as mãos.
Não consigo,
só com as mãos.

Nem sei se deixei
de acreditar
em alguma outra coisa.

As palavras são muito mais
amplas e lisas
que qualquer crença
ou norma.

As palavras pertencem-me,
são minhas só.

Poema-Diário.

Sou vulnerável
ao cansaço,
fico abatido
por um desfalecimento interior,
fico prostrado.

Cruzo pela milionésima vez
a perna,
ou descruzo ambas,
alternadamente.

Ninguém o julgaria
uma coisa mental.

Sinto-me desfeito
por tantas penas
e penitências.
Estou cansado.

Aventura.

A pele tisnada
sem meias
nuns mocassins
já batidos.

E o azul do céu,
num mesmo relance
do mesmo olhar.

Coup d`oeil
et le soleil
en plenitude.

Os colares de coral.
Os lagos bordados
de miosótis
e flor de lótus.