Coitado do Hamlet!
Assassinado,
Empurrado,
Para o sepulcro que é!
Oculto entre reposteiros,
Sem paixões,
Como os ladrões
Que lucram trinta dinheiros.
Coitado do que ele vê:
Crimes,
Espectros,
Correctos.
Coitado do Hamlet!
Mário Cesariny, burlescas, teóricas e sentimentais, Colecção forma, Editorial Presença, 1972, p.56.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Sand In My Eye.
Fica o granulado do sal
quando a água evapora,
a terra revolta
depois da colheita,
gretas abertas na rocha
pela passagem do vento.
Resíduos de madeira
e asas de mosca,
junto aos orifícios
onde as aranhas
habitam.
( " como todos os trabalhos de construção, que só deixam atrás de si algumas pedras e lixo. " ) (1)
Carcaças expostas
nas bancas de açougueiro,
como em Rembrandt.
Vísceras,
sangue.
Também se engole em seco,
quando se mudam as páginas
da vida
e os olhos se fecham ao esplendor
da luz.
É na penumbra
que o Tempo
parece flutuar.
(1) Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, in Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, 3ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. 259, 260.
quando a água evapora,
a terra revolta
depois da colheita,
gretas abertas na rocha
pela passagem do vento.
Resíduos de madeira
e asas de mosca,
junto aos orifícios
onde as aranhas
habitam.
( " como todos os trabalhos de construção, que só deixam atrás de si algumas pedras e lixo. " ) (1)
Carcaças expostas
nas bancas de açougueiro,
como em Rembrandt.
Vísceras,
sangue.
Também se engole em seco,
quando se mudam as páginas
da vida
e os olhos se fecham ao esplendor
da luz.
É na penumbra
que o Tempo
parece flutuar.
(1) Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, in Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, 3ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. 259, 260.
domingo, 11 de abril de 2010
Primavera.
Voltam as gaivotas
a sobrevoar a praia.
E os patos atravessam
os campos, em busca
de sapais.
Anima-se a vegetação
polvilhada de insectos.
Os dias estendem-se mais
e o Sol brilha e aquece.
Parece que a bonança
sobrevem à tempestade.
Saio de casa
para comprar jornais
no quiosque próximo.
Cruza-se comigo uma anciã
no seu passo incerto e lento.
E os adolescentes regressam
da escola, de mochila às costas
e a mastigar pastilhas.
a sobrevoar a praia.
E os patos atravessam
os campos, em busca
de sapais.
Anima-se a vegetação
polvilhada de insectos.
Os dias estendem-se mais
e o Sol brilha e aquece.
Parece que a bonança
sobrevem à tempestade.
Saio de casa
para comprar jornais
no quiosque próximo.
Cruza-se comigo uma anciã
no seu passo incerto e lento.
E os adolescentes regressam
da escola, de mochila às costas
e a mastigar pastilhas.
António Nobre, por Duarte de Viveiros.
Anto: sai dessa cova! ( É Primavera... )
Abre teus olhos grandes, poeta amigo,
E vem compor estrofes de oiro antigo
Na torre do Silêncio e da Quimera!
Por ti, saudosa, a Lusitânia espera!
Depressa, acorda! Deixa o teu jazigo...
Embrulha-te na capa e vem comigo,
Que o luar de azul está pintando a esfera!
Meu pálido e moderno português:
Não venhas triste como da outra vez
Em que eras tímida criança ainda!
Mas, traze os versos que fizeste à neve,
Aí nessa terra maternal e leve...
Bardo: levanta-te! ( Que noite linda! )
Obra Poética de Duarte de Viveiros, Lisboa MCMLX, Edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada, p.79.
Abre teus olhos grandes, poeta amigo,
E vem compor estrofes de oiro antigo
Na torre do Silêncio e da Quimera!
Por ti, saudosa, a Lusitânia espera!
Depressa, acorda! Deixa o teu jazigo...
Embrulha-te na capa e vem comigo,
Que o luar de azul está pintando a esfera!
Meu pálido e moderno português:
Não venhas triste como da outra vez
Em que eras tímida criança ainda!
Mas, traze os versos que fizeste à neve,
Aí nessa terra maternal e leve...
Bardo: levanta-te! ( Que noite linda! )
Obra Poética de Duarte de Viveiros, Lisboa MCMLX, Edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada, p.79.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Desgosto.
A poesia acabou.
Fecharam-se-me as palavras num nó.
Deprimiram-se-me as emoções
até ao vazio.
Um papel que se amarrota,
para ficar uma bola inútil
na mão fechada.
Vai nascer outro dia
e eu não sei
como descrevê-lo.
O que for belo,
então,
não tem lugar aqui,
neste desgosto
de tudo.
Fecharam-se-me as palavras num nó.
Deprimiram-se-me as emoções
até ao vazio.
Um papel que se amarrota,
para ficar uma bola inútil
na mão fechada.
Vai nascer outro dia
e eu não sei
como descrevê-lo.
O que for belo,
então,
não tem lugar aqui,
neste desgosto
de tudo.
Vidas Que Passam.
Hoje sei
que os dias se sucedem,
os minutos se escoam
e eu aqui,
sem nada fazer.
Deixo a luz acesa
pela noite fora.
Hoje sei
que enquanto durmo,
levantam os aviões
na Portela, em Barajas
ou Orly.
A vida flui.
A minha,
é outra vida que passa.
Ficou a luz acesa
e não a vou apagar.
que os dias se sucedem,
os minutos se escoam
e eu aqui,
sem nada fazer.
Deixo a luz acesa
pela noite fora.
Hoje sei
que enquanto durmo,
levantam os aviões
na Portela, em Barajas
ou Orly.
A vida flui.
A minha,
é outra vida que passa.
Ficou a luz acesa
e não a vou apagar.
sábado, 27 de março de 2010
Balada da Despedida.
Sonhos que foram só meus,
amanhã viverei.
Cidade que foi só minha,
a todos compreendi
e a todos aceitei.
Amei cada minuto
da minha vida
e vi os meus dias
multiplicados por mil.
Hoje não brinco
com futilidades colegiais.
Perdidas no tempo,
não passam de pirosas,
são apenas banais.
Promessas só minhas,
de nenhuma descansarei.
Hoje não quero
amizades ocasionais.
Amanhã vou partir
para encher a vida
de futuro
e viver também
com tudo o que passei.
Amizades assim
eu não quero mais.
São só passado,
são só pirosas,
são só banais.
Amanhã começarei
a viver o futuro.
E o quê mais?
amanhã viverei.
Cidade que foi só minha,
a todos compreendi
e a todos aceitei.
Amei cada minuto
da minha vida
e vi os meus dias
multiplicados por mil.
Hoje não brinco
com futilidades colegiais.
Perdidas no tempo,
não passam de pirosas,
são apenas banais.
Promessas só minhas,
de nenhuma descansarei.
Hoje não quero
amizades ocasionais.
Amanhã vou partir
para encher a vida
de futuro
e viver também
com tudo o que passei.
Amizades assim
eu não quero mais.
São só passado,
são só pirosas,
são só banais.
Amanhã começarei
a viver o futuro.
E o quê mais?
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