Até ao fim do Mundo.
E tu, inocente,
de nada sabes.
A força de um temporal,
hoje.
A eternidade,
depois.
A plenitude anónima
de tantas pessoas,
de tantas gentes.
Desde sempre
e por todo o lado.
Casos de vida
tão idênticos,
por vezes.
" Até ao fim do Mundo ",
meu amor verdadeiro,
prolonga o mistério
num mistério
maior.
quinta-feira, 4 de março de 2010
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Madeira 3.
" Fomos vendo passar casas inteiras, carros e frigoríficos. "
O céu muito escuro.
A chuva metia medo.
As ribeiras transbordaram.
Debaixo de lama, rochas
e troncos de árvore.
Estava ali há horas.
Tinham removido dos escombros
o corpo.
A derrocada.
Casas, pinheiros, carros.
Lama.
Tudo se desmoronou.
Destroços.
Pedregulhos enormes.
Pedaços de talha dourada.
O carro azul-escuro
entalado num quintal,
no meio das casas.
Correu para casa
aos gritos.
Foi procurar a mãe.
O cadáver de uma criança.
O barulho da ribeira e do vento
era ensurdecedor.
De madrugada conversaram
à luz das velas.
" Vi uma coisa escura
atrás de mim. "
Angústia.
Pânico.
O outro rumor.
Aflição. Choro.
( Elaborado a partir da reportagem " Morte e Sobrevivência ", revista Sábado, nº304- 25 de Fevereiro a 3 de Março de 2010. )
O céu muito escuro.
A chuva metia medo.
As ribeiras transbordaram.
Debaixo de lama, rochas
e troncos de árvore.
Estava ali há horas.
Tinham removido dos escombros
o corpo.
A derrocada.
Casas, pinheiros, carros.
Lama.
Tudo se desmoronou.
Destroços.
Pedregulhos enormes.
Pedaços de talha dourada.
O carro azul-escuro
entalado num quintal,
no meio das casas.
Correu para casa
aos gritos.
Foi procurar a mãe.
O cadáver de uma criança.
O barulho da ribeira e do vento
era ensurdecedor.
De madrugada conversaram
à luz das velas.
" Vi uma coisa escura
atrás de mim. "
Angústia.
Pânico.
O outro rumor.
Aflição. Choro.
( Elaborado a partir da reportagem " Morte e Sobrevivência ", revista Sábado, nº304- 25 de Fevereiro a 3 de Março de 2010. )
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Eu Adoro-te, Tôchim.
O anjo negro
iluminado à noite
por archotes, que vão seguros
pela mão de mascarados
de águias negras
luxuosíssimas...
A locomotiva
que parte da estação central
numa nuvem de fumo
e ao som do compasso metálico
de bielas
e cambotas
oleosas...
E a carruagem
puxada por uma quadriga
ajaezada de veludos
carmins
e roxos,
debruados a ouro.
Eu daria tudo
por te revelar
o meu maior segredo,
sobrevoando a razar
a preia-mar do litoral
português,
de óculos escuros,
auscultadores
e um boné azul
ultramarino.
iluminado à noite
por archotes, que vão seguros
pela mão de mascarados
de águias negras
luxuosíssimas...
A locomotiva
que parte da estação central
numa nuvem de fumo
e ao som do compasso metálico
de bielas
e cambotas
oleosas...
E a carruagem
puxada por uma quadriga
ajaezada de veludos
carmins
e roxos,
debruados a ouro.
Eu daria tudo
por te revelar
o meu maior segredo,
sobrevoando a razar
a preia-mar do litoral
português,
de óculos escuros,
auscultadores
e um boné azul
ultramarino.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
14 de Fevereiro. ( Para ti. )
O deserto
sombreia o teu corpo
pelas dunas.
Tombam maçãs
na relva dos pomares.
E as gaivotas
voam para as arribas,
antes que o temporal
se abata sobre o mar.
Uma linha de luz
desponta no horizonte,
ao nascer do dia.
A esta hora,
a imaginação renasce
em mim,
como uma revoada de anjos,
subindo aos céus.
E um bimotor atravessa,
em velocidade constante,
a extensa solidão
do deserto.
sombreia o teu corpo
pelas dunas.
Tombam maçãs
na relva dos pomares.
E as gaivotas
voam para as arribas,
antes que o temporal
se abata sobre o mar.
Uma linha de luz
desponta no horizonte,
ao nascer do dia.
A esta hora,
a imaginação renasce
em mim,
como uma revoada de anjos,
subindo aos céus.
E um bimotor atravessa,
em velocidade constante,
a extensa solidão
do deserto.
Casimiro de Brito.
13 de Fevereiro
Sento-me, e o mar senta-se comigo, nesta esplanada de falso inverno. É bom conversar com quem nos entende, um velho amigo, diante de uma mesa vazia. Quase vazia- uma garrafa de vinho ( ou é alma? ) também é gente. Os papéis, que sempre me acompanham, nem os tirei da algibeira. Este tampo desamparado basta. Basta para dizer um coração sem descanso, sem descanso partindo-se, a perfeição dos barcos silenciosos, o sabor de uma língua que muito amo, o medo das máscaras e das lápides. Alfaias e afazeres ficaram por momentos esquecidos onde há pouco andei a correr de um lado para o outro. O mar parece compreender: sem velhice nem lágrimas ensina-me o pouco que espero dos dias e das noites, alguma serenidade.
( ... )
Casimiro de Brito, Na Barca do Coração, Campo das Letras, 1ª Edição, Porto, Novembro de 2001, pág.48.
Sento-me, e o mar senta-se comigo, nesta esplanada de falso inverno. É bom conversar com quem nos entende, um velho amigo, diante de uma mesa vazia. Quase vazia- uma garrafa de vinho ( ou é alma? ) também é gente. Os papéis, que sempre me acompanham, nem os tirei da algibeira. Este tampo desamparado basta. Basta para dizer um coração sem descanso, sem descanso partindo-se, a perfeição dos barcos silenciosos, o sabor de uma língua que muito amo, o medo das máscaras e das lápides. Alfaias e afazeres ficaram por momentos esquecidos onde há pouco andei a correr de um lado para o outro. O mar parece compreender: sem velhice nem lágrimas ensina-me o pouco que espero dos dias e das noites, alguma serenidade.
( ... )
Casimiro de Brito, Na Barca do Coração, Campo das Letras, 1ª Edição, Porto, Novembro de 2001, pág.48.
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