quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Melhor Futebolista do Mundo.

Bonito, bonito...
é o jovem velocista africano,
pronto para correr
na pista de 100 metros.

É o índio na pradaria,
a cavalo do seu Mustang
malhado.

Bonito é o ganadeiro ribatejano,
que se passeia por bares à noite,
vestido de canastrão sóbrio
e não sabe ainda que o é.

É o turco de Istambul
ao cair da tarde,
que encanta as turistas
com os seus olhos verdes.

O esquimó pobre
vestido de peles de urso branco,
que come com auto suficiência
a carne crua das focas.

Bonito, realmente,
é o mecânico de subúrbio,
que cultiva os biceps
sob a t-shirt de feira.

O pescador humilde,
que tem olhos da cor do mar.

O turista acidental,
que se passeia com uma Beth
Ditto qualquer
e é feliz.

O marido da sostra,
que não era quando se casou.

O inevitável boémio,
o eterno solitário,
sem qualquer interesse
nem nenhuma posição.

Talvez também esse futebolista,
que trabalha dentro das chuteiras
e pensa dentro do relvado.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Para a Tôchim.

Amo as tempestades nocturnas
e o ribombar dos trovões.

( Nesse mar pouco chão,
de pouco me serviria
a carta de patrão... )

Amo as falésias,
o sal que se estilhaça
quando rebenta o mar.

Amo o sobrevoo
de helicópteros
sobre a pradaria.

A força das manadas
contra os curros.

O trote elegante
das éguas
na manhã serena.

O formigueiro sibilante
ao Sol de África.

Amo o silêncio
das nuvens altas,
estas nuvens negras
de chumbo.

E o som do chuveiro
de encontro
ao reposteiro.

Sair do banho
para a solidão
da casa.

Acender o candeeiro
da cozinha
e inundar-me
da luz de lama,
do sonho de argila,
a terracota fina
da tua memória
em mim.

Amo a mudez
do telemóvel,
outro dia ainda.

O chá de tília
antes de adormecer.

E a ti,
na brancura pura
doutro amanhecer,
eu amo-te ainda mais,
só a ti.

domingo, 31 de janeiro de 2010

No Tempo de Keats.

No tempo de Keats
não havia electricidade,
pois então.

Não havia automóvel,
nem avião.

Vivia-se em quintas
e as cidades eram sujas
e enlameadas.

No tempo de Keats
havia o Napoleão.

Oh, como era
o tempo de Keats
e o que não havia
nesse tempo?!...

No tempo de Keats
as folhas caíam
no Outono.

Os patos migravam,
pois então.

As palavras eram doces,
ou não.

A noite iluminava-se
a carvão.

No tempo de Keats
não havia desodorizantes
para a transpiração.

O Vento.

O vento corta frio
as esquinas
e rasga-me a pele
como uma lâmina.

Arrasta em turbilhão
as folhas mortas
do esquecimento
de tudo.

Tenho os olhos molhados
da água e do vento,
mas não posso agora
virar as costas
ao tempo.

Este vento cega.

Este vento satura o espaço
e uiva louco
e sem destino.

No fundo granuloso
do jardim,
o vento parece mesmo
que faz fumo.

Desânimo.

Inércia.
Paragem de ritmo.
Dilatação do Tempo.

Ausência
e vazio.
Vontade insatisfeita.

O Outro foi sempre
mais feliz.

Desde a infância.

Insensibilidade
e indiferença.

Que fazer?

Ostentação.

O tweed cinzento de lã
e as jantes imaculadas de prata
do automóvel novo rico.

Não é assim que tu queres.

Um céu azul clarinho de Inverno,
os parafusos de aço na grelha desbocada
do estúpido automóvel
e as calças vincadas pela empregada.

Não é assim que tu queres.

O pullover antracite
e o sorriso claro,
Sensodine,
amável, simpático.

Tu queres de outro modo.

Tu queres tudo,
sem ti.

Porque tu não estás
em ti.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

E o Mercedes.

E o Mercedes
põe o anel de ouro
no mindinho.

O Mercedes
é boa gente,
tem amigas
às migalhas.

O Mercedes
quando troca de fato
volta-se para as colegas
e vai
e diz,
" Vai uma volta,
nos corredores do Vasco?... "

Só de pensar nisso
o Mercedes acorda
e põe o ouro
no mindinho.