quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Neve.

Caiu a neve na Serra
e, perdido o rasto das cabras,
todo o dia os lobos uivaram.

É grande a agitação na alcateia.
Rixas, correrias, latidos de dor
e o olhar faiscando ódio
dos mais famintos.

Nos vales, apavoram-se as
capoeiras, ao cair da noite.

Todos vivem em sobressalto,
agora que o tempo mudou.

O manto branco cobre
toda a Serra.

Crepitam as lareiras e o fumo
das chaminés confunde-se
com o nevoeiro cerrado.

Agora coabitam os animais
com os rudes montanheiros.

Só os casebres perdidos de xisto
parece que sujam a noite na Serra.

E, inquietação suprema,
toda a noite os lobos uivaram.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

S.M.S. de L. P. recebido no dia 12/10/09, às 16:36:44.

" Quando é que
chega o meu
namorado? "

Talvez um Retrato.

A Lua reflecte-se límpida
nos teus olhos
de noite.

E o teu cabelo é da cor
das folhas das videiras
no Outono.

O sorriso,
arroio leve de água
pura.

Vestem-te
e calçam-te
os figurinos
mais recentes.

Nem saberias ser
de outra forma.

Por isso é que
reparam em ti,
mesmo as raparigas
mais elegantes.

Também por isso és
o orgulho dos que são teus.

A jóia mais valiosa,
porém, tens guardada dentro
do peito.

Toda feita em ouro de lei,
é o teu próprio coração.

domingo, 18 de outubro de 2009

Silêncio.

Não tragas tanta gente
para estes versos.

Já sabes que o Tempo
te sobrevive
sempre.

E o teu silêncio
tem luz.

Solidão.

Percebo claramente,
eu só.
A rega dos jardins,
como se faz.

Diário ( Outubro )

Há um espelho à entrada de casa.
A sua superfície lisa, limpa
e transparente.

No Porto de Luanda,
no cais do Niassa
à noite.
Torneiras abertas para o mar.
Essa paz envolveu-me
para sempre.

A solidão nocturna dos carros do lixo.
Os semáforos com laranja intermitente.
Os homens da Câmara que regam as ruas
de madrugada.
A noite sempre escura, sempre igual.
A triste vida de Lisboa.
E só hoje o escrever.

... e digas quando vens a Portugal.

Depois, tudo se dissipa
nessa nuvem furiosa...

Esta neblina perdida
das tardes de Outubro.
As colinas dos arredores
e os seus buxos e arbustos.
A linha do teu corpo
envolta no azul.

Eu não esqueci nunca
as palmeiras na praia
e a extensão branca da areia.

Não cheguei a adormecer.
Fui sempre
um outro.

O Amor 2. ( Para a L. P. )

O amor é uma rotina
saborosa,
como o lançamento
de foguetões,
também é.

Deslizam os golfinhos
na superfície da água
e o amor estende-se
e eleva-se
como uma asa-delta.

O amor também vive
da ausência
e da separação.

É bom interromper.
O amor, não.