domingo, 18 de outubro de 2009

Arraia-Miúda. ( Fernão Lopes )

Oh, o povinho das ruas de Lisboa,
do Alto do Pina, ou das
Avenidas Novas!

O povinho das mines
e das camarias,
que trata as miladies por
minha senhora
e lhes arruma os carros
por cinquenta cêntimos!

O povinho que vê na política
a verdadeira roubalheira e prefere
falar do Benfica com o Sr. Engenheiro,
para lhe ensinar os passes de mágica
do Aimar e do Cardozo.

Desce a menina ao café
e cumprimenta o povinho
com um Olé!

E em dias especiais,
lá para as Festas dos Santos,
vão todos juntos a Alfama,
aos arraiais!

Oh, o povinho das ruas,
que é todo tu-cá
com a viúva do Sr. Doutor.

O povinho de Lisboa,
que transpira Liberdade,
Benfica e Igualdade!

Amanhã bem cedo
lá estará aquele na Praceta,
a levar os cigarros ou o jornal
à viúva do Sr. Doutor,
a troco de uma graça
ou por um especial favor.

Oh, as gentes de Lisboa
que mais parecem os pardais
a chilrear pelas ruas
e vem de manhã cedo
fazer o biscate
ao Sr. Neves da Mercearia!...

Paparazzi.

Não viu as palmeiras
abertas em leque,
o seu alfabeto antigo
desenhado numa moldura
azul.

Um muro branco
limitava o seu olhar.

Não viu a água azul
e a relva molhada,
as cadeiras de descanso
abertas e vazias
em redor.

Por isso não viu
se estavas, se ias
essa manhã ao jardim,
para ler ou simplesmente
dormitar.

A varanda da sua casa distante
expunha-o apenas ao azul do céu
e ao silêncio da rua deserta,
alguns metros mais abaixo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Abandono.

Evapora-se
invisível
como se se esfumasse.

Perde-se
imperceptível
a pulsação.

A respiração,
a ânsia
de chegar.

Dilata-se o Tempo
e estende-se
vazio.

Só.
O Tempo.

Passagem das Horas.

Uma pálpebra só.
O silêncio da solidão
nocturna.

Um gesto subtil
e o olhar sujo,
escurecido.

O telefone pousado
em silêncio.

A mudez
das paredes brancas
da casa mergulhada
no silêncio.

A solidão nocturna.

Uma pálpebra só
se move
imperceptível.

... as asas! ( Maria Teresa Horta )

As asas
incertas
nas asas
bordadas
do avesso.

A chama,
o gume
dos corpos.

Solta
a cabeça
na cabeceira
de linho.

O suor
das tuas asas
abertas.

A pétala.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Infância.

O que deixei perdido
nos areais do Guincho,
em Setembro de sessenta e um?

Conchas, pedrinhas, ou algas sujas?

Um punhado de areia
lançado contra o vento
e o seu retorno, ferindo os olhos.

O voo lento das gaivotas,
ou o sabor seco na garganta
da água do mar?

Nada perdi nessas dunas
do Guincho, no fim do Verão
de sessenta e um.

Trago ainda comigo o aroma
dos pinhais
e a imensa solidão do mar.

A vontade de desvendar os mistérios
encerrados há séculos nas escuras
salas do Forte de S. Julião.

E a memória branca do amor,
ao atravessar a Praça do Comércio
no regresso a casa,
e que ainda sinto hoje,
por Portugal.

Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra, Obras de Eugénio de Andrade/16, Limiar, 3ª Edição, 1989

p.54

Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro canta na neve.
Há um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de lábios, digo.

p.63

Não oiças essas vozes que não param
de crescer a caminho do inverno,
os lugares onde o corpo de erro
em erro abdica de ser corpo
são mortais, não oiças essas vozes
onde o sol apodrece, nunca mais.

p.66

Passaste os dias a pôr sílabas
sobre sílabas, dorme, estás cansado.
Não são do rio essas luzes,
dorme, já não há rios.
Nos pátios do outono a noite
já soltou os seus cães, dorme.

p.69

Oiço correr a noite pelos sulcos
do rosto - dir-se-ia que me chama,
que subitamente me acaricia,
a mim, que nem sequer sei ainda
como juntar as sílabas do silêncio
e sobre elas adormecer.