terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tu, sempre. ( 21 de Março de 2009 )

Amo-te
com palavras simples,
a palavra Paz.

Amo-te como quem sorri,
rajada de vento que
levanta os pássaros em debandada.

A palavra Água,
a palavra Luz.

Amo-te com serenidade,
um leve piscar de olhos.

Amo-te como quem respira,
como se sonhasse.

Amo-te e são longínquas
as paisagens.
O céu, extenso e profundo.

Amo-te assim,
com a palavra Tanto,
a palavra Muito,
Amor.

Barroco. ( Para ti )

Luzes fortes, raios
Ultra-violeta e
Infra-vermelhos explodem
Sobre a minha cabeça,
Aberta ao espaço estelar.

Penumbra depois,
Ao fim do dia, e as
Sensações que me acalmam o
Coração inquieto, revelam
Onde está, onde pára o meu
Amor...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Conto. ( Homenagem a Franz Kafka ) Março de 1998

( Foram tempos difíceis, 1997/1998. Mas também foram tempos que já lá vão. Termino com a transcrição deste Conto dedicado a Kafka e a satisfação de viver outra vida, noutro século. Je est un autre, eterno Rimbaud. )


CONTO
Insectos que rastejam, que se dispersam entre as árvores e se lançam pelas clareiras em busca de alimento e se alimentam do sangue de animais mamíferos, de vacas, do nosso sangue.
Insectos que voam, que se espalham pelo ar, em volta das árvores, que se soltam pelas clareiras, perseguindo talvez o sangue que os alimenta e nem sei como o detectam.
Insectos que pousam na água das nascentes, insectos que o Verão gerou e que, de forma sibilante, tudo perseguem, as fezes das vacas, o cheiro transpirado dos corpos, a pele porosa e desprotegida dos nossos corpos.
São esses insectos que nos perseguem, quando atravessamos os campos e as estradas em busca de cidades, que sonhamos realizarem os nossos devaneios mais inocentes.
São os mesmos insectos que perseguindo os nossos passos erráticos, o fizeram também a Verlaine e Rimbaud, saindo da Normandia a caminho da Bélgica, ou ainda Apollinaire, quando chegava a Colónia ou a Munique.
Os insectos que Serpa Pinto passava as noites a tentar eliminar, quando pernoitava em cubatas que lhe iam cedendo na sua itinerância pelas margens do rio Zambeze, como nos conta em Como Eu Atravessei a África.
Sem ser exaustivo, refiro as aranhas e os escaravelhos, que simbolicamente tanto de bom representavam entre os egípcios do tempo dos faraós, como aquele enorme insecto que descobrimos na Metamorfose de Kafka, o insecto da culpa duma vida mesquinha, e nesses opostos encontramos justificação para a nossa náusea, para a enorme repugnância que sentimos na monotonia das grandes metrópoles, quando nos deparamos inadvertidamente com esses repugnantes seres.
E é então que damos uma luta sem tréguas às baratas, às traças, às formigas, que irrompem do mais fundo dos armários, pelas roupas que guardamos, ou nos alimentos que temos em dispensas e cozinhas, nas prateleiras, sobre as mesas.
Não viveremos jamais sem insectos. Vão mesmo resistir-nos no Tempo.
Chicago para os ácaros, a Holanda dos pulgões!
São pois os insectos, um capítulo de mineralogia viva, seres abjectos que nos estimulam a imaginação, como talvez se leia em Luciano, bichos gigantes que a micro-engenharia fotográfica desvenda para nosso horror e de que hoje tanto sabemos sobre a sua voragem, a sua força hercúlea, ou a horda cega para salvar uma única rainha geradora.
Habitam os formigueiros, ou os cortiços, dentro do tronco das árvores, na madeira dos armários, nas escadas, nas torres de térmitas, galerias, túneis e reproduzem-se incessantemente, os malvados!
Fascínio neo-gongórico, sei bem, decadentismo serôdio que faz eleger os insectos, apóstolos do comportamento!
Peter Gabriel tão fantástico num jardim de caracóis!
Alice no País das Maravilhas!
Hoje é possível ler obras que explicam os insectos com todo o pormenor romanesco.
Serão úteis cientificamente...
Que importa?!...
Este conto é sobre os insectos que atravessam os campos, que sobrevoam a água, sempre presentes na vida dos mais livres, como em Walt Whitman.
Insectos que proliferam nos tapetes, dentro das gavetas, no fundo de sacos, no interior de elecrodomésticos.
Vou usar uma lupa para observar os seus aparelhos bocais, o seu abdómen, ou o modo como as suas asas se ligam ao tronco.
Vou revê-los em emblemas e em bandeiras.
Vou relê-los na imaginação de pacientes.
Na verdade, não queremos desfazer-nos deles.
Eu não imagino o Mundo sem insectos.
Nem a Morte.
Merecem bem um poema.
Ou um conto.

Diário. ( Março, Abril e Maio de 1998 )

Vês como eu vivo, na margem de tantos erros. Como eu vou de Charlie Brown a Fritz, The Cat, buscar a aparelhagem salva-vidas com que vogo, solitário, no mar-alto da existência que reinventei... para nada...
Para ficar, como quem fica só.
A tergiversar lugares comuns.
Erro Poético de quem leu Erro Próprio, de António Maria Lisboa e ficou na mesma:
para onde quer que me volte, não sou capaz de deixar de ouvir os Rolling Stones, de rever M., de Frtiz Lang, fumar Samson, comer hamburguers.

Enquanto podava arbustos e trepadeiras, no jardim de sua casa em Vila do Conde, a senhora gritava para dentro de casa:
- Toma um banho rápido, está a acabar o gás! Toma um banho rápido!

Árvores que são como cavalos, quando soltam as crinas no galope livre.
Estrelas, que são como praias serenas, quando o Sol se põe e a areia ainda cintila.

São bolas de fogo que a noite acende.

" Já tinha aceite que a vida não é senão uma coisa que se repete(...) A minha vida deixou por completo de me interessar. " ( Pedro Paixão, Vida de Adulto, Edições Cotovia, 6ª Edição, Dezembro de 1998 )

Há muito que não brincamos com esta luz.
Os aviões a levantar voo.
É muito cedo.

É muito cedo, é muito cedo.
Não me doi o pescoço. Não me doi o peso do estômago, dos órgãos que as costelas comprimem, na cavidade toráxica.
A tontura dispersa-nos.
A respiração contida: não sou capaz de abandonar-te.
I want you, but I don`t need you.

As torneiras de água quente abertas jorram fumegantes.
Água muito quente.
Um dia será assim: Nunca mais nenhum compromisso.
Instantaneamente.
Já hoje se dilatam os prazos, se adiam, por vezes, os contactos.

Em pura perda, a nossa relação.
Werther perdido.
Perdido, o coração de Werther.
E tu gostas, tu ainda queres mais.
Tu queres, tu mesma o disseste, já nem sabes como.

Hoje, são temporadas inteiras que não vos vejo, longos períodos de Tempo.
A preia-mar em silêncio.
No mar intenso esfumou-se a tua imagem.
Em todas as marés se apaga.
Um lindo postal, que guardo entre as páginas de um livro esquecido.

A imensa mansidão dos teus ombros.
E o pescoço.
Imensa mansidão, devagarinho.
Sou mesmo capaz de abandonar-te.

Há muito não brincamos com esta luz.
Divididos em sofás, no silêncio.
Imensa vastidão, os teus ombros e o pescoço.
S. Petersburgo não forma só sobre a neve outra ondulação de neve.
O sonho já se esfumou há muito.
E a neve apagou S. Petersburgo desse sonho.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tu.

As flores,
o vento, a luz do Sol.

As pequenas distracções,
o sorriso,
o Amor dos que são
realmente teus.

Tu mereces tudo isso.

Partida. ( Para a L. P. )

A esfinge que retrata a solidão.
Farol perdido de Alexandria.

O teu mar,
agora são todos os mares.
E a tripulação
é sobretudo filipina.

Há uma noite assim,
na baía do teu corpo.
Luzes intermitentes,
que repousam na água.

E que tu esqueces.

Diário. ( Janeiro e Fevereiro de 1997 )

Um cisne.
Porém, vogando
em águas negras.
O cuidadoso chapinhar da ave.

O olhar acutilante de uma águia.
Um só voo,
o mesmo balanço
ao poisar.

A grande pressão do Tempo,
esse envolvimento.

Um cinzeiro para apagar um cigarro.

Os reactores do Boeing 707 da Sabena na pista principal
da Ala-Norte
do aeroporto de Luanda.

Corto Maltese na bagagem de um adolescente.

O melhor refúgio.
Um salão de chá entre rochedos.
Um refúgio?
A esplanada junto ao rio.
Música para quebrar o silêncio.

Coisas com que eu fiquei de Agosto de sessenta e sete.
Um 45 rotações,
ou a postura que se vê numa fotografia.
Inocência perfeita.
Em Agosto de sessenta e sete.

São momentos breves, os gestos do banho,
cada fricção, cada lugar do corpo.
Deriva permanente.

Uma fonte de água fria,
em poliestireno expandido.