segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tu.

As flores,
o vento, a luz do Sol.

As pequenas distracções,
o sorriso,
o Amor dos que são
realmente teus.

Tu mereces tudo isso.

Partida. ( Para a L. P. )

A esfinge que retrata a solidão.
Farol perdido de Alexandria.

O teu mar,
agora são todos os mares.
E a tripulação
é sobretudo filipina.

Há uma noite assim,
na baía do teu corpo.
Luzes intermitentes,
que repousam na água.

E que tu esqueces.

Diário. ( Janeiro e Fevereiro de 1997 )

Um cisne.
Porém, vogando
em águas negras.
O cuidadoso chapinhar da ave.

O olhar acutilante de uma águia.
Um só voo,
o mesmo balanço
ao poisar.

A grande pressão do Tempo,
esse envolvimento.

Um cinzeiro para apagar um cigarro.

Os reactores do Boeing 707 da Sabena na pista principal
da Ala-Norte
do aeroporto de Luanda.

Corto Maltese na bagagem de um adolescente.

O melhor refúgio.
Um salão de chá entre rochedos.
Um refúgio?
A esplanada junto ao rio.
Música para quebrar o silêncio.

Coisas com que eu fiquei de Agosto de sessenta e sete.
Um 45 rotações,
ou a postura que se vê numa fotografia.
Inocência perfeita.
Em Agosto de sessenta e sete.

São momentos breves, os gestos do banho,
cada fricção, cada lugar do corpo.
Deriva permanente.

Uma fonte de água fria,
em poliestireno expandido.

A Cidade em 1997.

Pássaros.
Insectos.
4`33`de John Cage.
Silêncio.

Depois,
os sons da floresta,
um tombar permanente de cascata,
o ruído de um formigueiro,
símios que guincham,
restolhada de ramos nas grandes árvores.
E o seu eco.

O silêncio outra vez.
Depois,
tudo recomeça.
Agitação, gritos, silvos,
ramos que se agitam,
a floresta.
O Tempo.
E a vida da floresta.

A vida obsessiva nas grandes cidades,
há alguma comparação?

Diário. ( 26 de Outubro de 1996 a 8 de Janeiro de 1997 )

1. Respiração lenta.
Névoa.
Manto cinzento recortando os edifícios.
Uma gaiola de canários à janela.
Manhã fria.
É preciso recomeçar.

2. A viagem é agressiva.
É uma autêntica agressão para quem viaja.
Um rochedo na paisagem.

3. Afinal, absorvido no meu trabalho,
é o perfeito deserto à minha volta.

4. De dentro da tua voz namibiana
de New York.

5. Mãe e filho num Toyota dos anos 60, à minha frente, ao passar pela Estação de Serviço, a
senhora faz correr o limpa pára-brisas.
Eu curvei para o Fonte Nova e eles continuaram. A caminho de Benfica? E daí, para onde
ainda?

6. Ele e ela no salão de jogos, bisbilhotando. São o casal esquerdista, o casal avant-garde.

7. Napoleão a cavalo entre as asas de uma borboleta.
Ou seria uma águia?

Franz Schubert e... Tu.

Regresso ao mar tempestuoso,
intrépido navegador solitário.

Arrisco a travessia das grandes
correntes,
prancha que enfuna como as velas
tensas
de uma fragata veloz.

Espraio-me depois sobre
o teu corpo, como
espuma que borbulha nas luras
de caranguejos,
ou algas que repousam revoltas
na baixa-mar.

Nas cidades,
os salões apagam-se
para o silêncio mais profundo,
quando o Sol se põe no horizonte
e as cores em fogo se estendem
ao infinito.

E é então
que o teu corpo arde,
tão lentamente como
uma sinfonia incompleta
ou uma canção crepuscular.

George Steiner, " Errata: Revisões de Uma Vida ", Antropos, Relógio de Água Editores, Novembro de 2001, p.113

Que monótono não seria fazer amor no Paraíso!