É a morte que nos acorda por vezes,
esse reverso tão luminoso da Vida,
para o mais profundo nada,
o mais completo temor.
É um sobressalto
que faz a tarde mais doce,
sem sequer o querermos,
e torna irresolúvel
a tremenda tragicomédia
que a Vida é.
Mas, que importa isso agora,
se lá fora está um calor atroz
e Agosto se estende
por mais uns dias
ainda?
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Raul Brandão, op. cit., pp. 332, 333
O promontório é um punho nodoso, com dois dedos estendidos para o mar- a ponta de S. Vicente e a ponta de Sagres. Nos dias sem sol, como o de hoje, os dedos parecem de ferro: apontam e subjugam-no. Em frente o mar ilimitado; em baixo o abismo, a cem metros de altura. Ventanias ásperas descarnam o morro cortado a pique, e no inverno as vagas varrem-no de lado a lado.
Sagres é o cabo do mundo. Levo os pés magoados de caminhar sôbre pedregulhos azulados, num carreirinho, por entre lava atormentada. Do passado restam cacos, o presente é uma coisa fora da realidade, grande extensão deserta, pardacenta e encapelada, com pedraria a aflorar entre tufos lutuosos; ( ... ) O mar- é verdade, esquecia-o- mas o mar como imensidade e tragédia, e ao lado a gigantesca ponta de S. Vicente, só negrume e sombra. Mar e céu, céu e mar, terra reduzida a torresmos, e o sentimento do ilimitado. Esta grandeza esmaga-me.
Grande sítio para ser devorado por uma ideia! ( ... )
Sagres é o cabo do mundo. Levo os pés magoados de caminhar sôbre pedregulhos azulados, num carreirinho, por entre lava atormentada. Do passado restam cacos, o presente é uma coisa fora da realidade, grande extensão deserta, pardacenta e encapelada, com pedraria a aflorar entre tufos lutuosos; ( ... ) O mar- é verdade, esquecia-o- mas o mar como imensidade e tragédia, e ao lado a gigantesca ponta de S. Vicente, só negrume e sombra. Mar e céu, céu e mar, terra reduzida a torresmos, e o sentimento do ilimitado. Esta grandeza esmaga-me.
Grande sítio para ser devorado por uma ideia! ( ... )
Raul Brandão, op. cit., pp. 328, 329
Atravesso Portimão de olhos postos no castelo de Arade, onde o velho poeta sonha com o Fausto, e talvez como êle em recomeçar a vida. A luz é cada vez mais viva. Um homem com dois cabazes apregôa na rua: é um tipo sêco e tisnado de mouro, de camisola azul e perna nua. Passa uma carrinha guizalhando, e logo atrás outro burro com bilhas de água fresca. É extraordinário o que êste pobre jerico inocente e peludo, de olhos límpidos, trabalha no Algarve. É êle que leva a fruta ao mercado e tira a água das noras. Lavra as terras calcinadas, transporta pelas estradas sòlheirentas, adornado com cordões vermelhos, quási uma família a dorso.(...)
Detenho-me um instante na cenográfica praia da Rocha, extasiado nos dois grandes penedos destacados e num fio de areia doirada ao pé da água azul- tudo pintado por Manini agora mesmo. A um lado a ponta do Altar entra decidida pelas águas; do outro, o esfumado Lagos mal se entrevê muito ao longe. (...)
Detenho-me um instante na cenográfica praia da Rocha, extasiado nos dois grandes penedos destacados e num fio de areia doirada ao pé da água azul- tudo pintado por Manini agora mesmo. A um lado a ponta do Altar entra decidida pelas águas; do outro, o esfumado Lagos mal se entrevê muito ao longe. (...)
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
O Último Verão
Desceste os degraus vezes sem conta,
para uma praia abrigada pelo molhe,
do outro lado do rio.
Em frente,
a enorme extensão de areia
mais parecia a bancada principal
de um autódromo,
numa tarde colorida de Domingo.
Foi o vento sueste que trouxe
as correntes quentes para a praia.
Tu gostavas de mergulhar
e passavas muito tempo
dentro de água.
Depois, apanhavas conchinhas
na rebentação,
ou ficavas simplesmente de pé,
porque isso era bom.
Sentavas-te, já tarde,
na varanda de casa,
para contemplar a Lua
em Quarto Minguante.
Uma noite, pela auto-estrada fora,
levei-te ao Cabo mais ocidental,
junto ao grande farol,
pelo simples prazer
de viajar contigo.
Nem tempo houve para parar
e observar o céu tão estrelado,
tão maravilhosamente deslumbrante
e aceso.
Deste acaso por mim,
em todo esse tempo
de distracção?
Pois se nunca te levei flores
pela manhã,
nem perfumei o ar
à tua volta,
de lavanda,
ou alfazema fresca...
Oh, felicidade rara,
eu poder amar-te tão só,
e o tempo a escoar-se,
tão perto já
de se apagar,
para nós dois.
para uma praia abrigada pelo molhe,
do outro lado do rio.
Em frente,
a enorme extensão de areia
mais parecia a bancada principal
de um autódromo,
numa tarde colorida de Domingo.
Foi o vento sueste que trouxe
as correntes quentes para a praia.
Tu gostavas de mergulhar
e passavas muito tempo
dentro de água.
Depois, apanhavas conchinhas
na rebentação,
ou ficavas simplesmente de pé,
porque isso era bom.
Sentavas-te, já tarde,
na varanda de casa,
para contemplar a Lua
em Quarto Minguante.
Uma noite, pela auto-estrada fora,
levei-te ao Cabo mais ocidental,
junto ao grande farol,
pelo simples prazer
de viajar contigo.
Nem tempo houve para parar
e observar o céu tão estrelado,
tão maravilhosamente deslumbrante
e aceso.
Deste acaso por mim,
em todo esse tempo
de distracção?
Pois se nunca te levei flores
pela manhã,
nem perfumei o ar
à tua volta,
de lavanda,
ou alfazema fresca...
Oh, felicidade rara,
eu poder amar-te tão só,
e o tempo a escoar-se,
tão perto já
de se apagar,
para nós dois.
Vimeiro
Memória desses dias
junto ao mar,
o teu sorriso espelhava
a força das ondas.
O céu aberto
na limpidez dos teus olhos.
Lembrança das verdes falésias,
na curva dos teus ombros,
no teu corpo deitado, tão suave.
Recordo ainda
o voo lento das gaivotas
e a neblina fresca a formar-se
ao meio da tarde.
A minha entrega ao Mundo,
na serenidade dos teus braços.
E depois as crianças,
logo pela manhã,
bebendo a Vida
nas suas tropelias
sem fim.
junto ao mar,
o teu sorriso espelhava
a força das ondas.
O céu aberto
na limpidez dos teus olhos.
Lembrança das verdes falésias,
na curva dos teus ombros,
no teu corpo deitado, tão suave.
Recordo ainda
o voo lento das gaivotas
e a neblina fresca a formar-se
ao meio da tarde.
A minha entrega ao Mundo,
na serenidade dos teus braços.
E depois as crianças,
logo pela manhã,
bebendo a Vida
nas suas tropelias
sem fim.
Os Pescadores, Raul Brandão, edição definitiva, 10º milhar, Livraria Bertrand, sem data, pp.209,210, 211
" Vou primeiro ao Baleal, que é a mais linda praia da terra portuguesa. Não passa duma grande rocha desligada da costa e fundeada a trezentos metros- mas esta rocha é uma ossada, e talvez o último vestígio da Atlântida, saindo do mar azul a escorrer azul, e prêsa à terra por um fio de areia que nas marés mais vivas chega a desaparecer. Dêste ancoradouro, com uma baía ao sul formada pelo Carvoeiro, e com outro côncavo ao norte entre a rocha e a costa, vê-se o esplêndido panorama da terra, do mar e do céu. Vive-se extasiado e embebido em azul, no meio do mar azul, no meio do mar verde, no meio do mar dramático. Voga-se em tôda a luz do céu e em tôda a côr do mar. Dum lado o areal em circo e aquele grande morro estendido pelo mar dentro; do outro, e até onde a vista alcança, todos os tons da costa, desde as labaredas das terras sulfurosas e as chapadas negras dos rochedos, com riscos de vermelho, até ao biombo que vai passando e desmaiando, primeiro roxo com aldeias ao sol e fundos verdes de pinheiros, depois transparente até atingir o indistinto e o diáfano numa última palpitação de claridade nublosa. E tudo isto muda de côr e se transforma segundo as horas que passam. Há momentos em que é doirado, de manhã ou à hora do poente. Há outros em que me sinto abismado em azul e atascado em azul. O movimento das ondas esmorece e acalma. À volta só luz e côr. A costa some-se. Uma apoteose de oiro e verde lá no fundo. Do horizonte à praia corre e cintila a esplêndida estrada do sol. E agora - reparem! reparem! - o mar é verde e o céu perdeu a côr... (...) "
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
29 de Julho de 2009
Luzinhas da cidade à noite,
candeeiros antigos do bairro vizinho.
O som de um motor cansado
perde-se ao longe.
Ninguém imaginaria ver de dia,
as praias cheias de gente,
de cores e de luz.
Tu, regressando da água,
num sorriso aberto,
o cabelo a escorrer.
Agora, tudo é silêncio
e solidão.
E a tua ausência
dói tanto.
candeeiros antigos do bairro vizinho.
O som de um motor cansado
perde-se ao longe.
Ninguém imaginaria ver de dia,
as praias cheias de gente,
de cores e de luz.
Tu, regressando da água,
num sorriso aberto,
o cabelo a escorrer.
Agora, tudo é silêncio
e solidão.
E a tua ausência
dói tanto.
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